O Oportunismo e a Revolução, por Assis Brasil
Nota sobre publicação original: baseada em notas taquigráficas de conferência pública realizada por Assis Brasil no Club Republicano Academico em 16 de junho de 1880. São Paulo: Typographia A. L. Garraux . & Comp. 1880.
Neste panfleto Republicano, Assis Brasil tem a intenção de explicitar o caráter inoportuno da Monarquia, devolvendo aos partidários deste regime político o estigma de inadequação ao tempo histórico.
No ano em que esta conferência foi pronunciada, Assis Brasil já era reconhecido propagandista gaúcho da República, provisoriamente deslocado para a capital paulista em razão dos estudos. Em 1876, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo, onde aprofundou seu envolvimento com a causa e com os conterrâneos políticos republicanos. Assis Brasil pertenceu à geração de estudantes que incluiu, entre outros, Pinheiro Machado, Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, os principais expoentes da política gaúcha na Primeira República. Foi um dos fundadores do jornal A Evolução e do Club Republicano Academico – onde proferiu a conferência aqui reproduzida – ambos importantes meios de divulgação da propaganda republicana em um dos estados de maior influência política do país.
O rompimento com Castilhos, que os consagrou como rivais políticos, foi posterior ao momento em destaque. Por ora, o princípio do republicanismo autoritário ainda não conflagrara a discórdia que os apartaria radicalmente no cenário político. A tarefa de refutar a Monarquia ainda os abrigava igualmente sob a bandeira da República, então mobilizada de modo indistinto. Ambos concebiam-na como verdade científica; como imposição inelutável da história. A pretensão de um conhecimento positivo sobre a sociedade, de clara influência comtiana, unia-os e também diferenciava-os das vertentes republicanas paulista e carioca.
Nesta conferência, Assis Brasil elege os monarquistas como interlocutores, dedicando-se a refutar, uma a uma, as alegações correntes e detratoras da República. Em linhas gerais, seu esforço é o de culpar a Monarquia pelos males de que padece o povo, tais como a falta de instrução e a apatia política. Com base no princípio de que a organização política precede a social, a reprodução da Monarquia vigente jamais abrigaria a possibilidade de superação da precária cena social. Para Assis Brasil, a República instituiria o móvel necessário para a reinvenção da política.
Em um ambiente político alheio ao princípio republicano da soberania popular, Assis Brasil enxerga a precipitação do momento revolucionário como “reação da liberdade usurpada”. A legitimidade da revolta estaria assentada no direito dos povos. Para Assis Brasil, a história haveria de seguir seu curso natural e contornar o obstáculo monárquico.
Triunfante hoje na serena esfera das consciências, a causa republicana pende apenas de um delgado fio do mais delgado de todos os oportunismos.
Neste discurso esforço-me por fazer sentir este fato.
Tendo conseguido, como creio, demonstrar a improcedência dos argumentos contrários propus o único meio que me parece racional para a completa eliminação do regime monárquico.
Bem se vê que este assunto – oportunismo e revolução – fornece matéria, não para um discurso, mas para muitos volumes, procurei discuti-lo o mais sinteticamente que me foi possível.
Todas as questões são aqui apenas tocadas de leve. Julguei-me obrigado a tocar em todas elas, porque são todas tão urgentes e tão intimamente ligadas, que uma não pode aparecer sem outra.
Há alguns meses, realizei na ilustrada cidade de Pelotas, em minha província, o Rio Grande do Sul, uma outra conferência pública sobre assunto semelhante. (As formas de governo e a oportunidade da forma republicana no Brasil), nessa ocasião, porém a matéria foi desenvolvida por modo muito diverso, como se poderá ver nos resumos feitos por alguns jornais.
Além disso, quase todos os pontos deste discurso já foram desenvolvidos com mais amplitude na Evolução, por mim e pelos meus dois valentes companheiros, na redação daquele periódico, os Srs. Pereira da Costa e Júlio de Castilhos, especialmente por este último, cujas idéias se concentrarão aqui em muitos lugares.
Não concluirei sem deixar aqui um voto de profunda gratidão aos meus distintos correligionários, amigos e comprovincianos E. Fernandes Lima, J. de Barros Cassal e Argemiro Gabão, pelo obséquio generoso que me prestaram tomando as notas taquigráficas as quais devo o poder de hoje publicar este obscuro discurso.
S. Paulo, Julho de 1880
A. B.
O OPORTUNISMO E A REVOLUÇÃO
(Ao aparecer na tribuna, o orador é recebido com uma grande salva de palmas)
Recebo, cidadãos, profundamente penhorado esta generosa manifestação com que saudais o meu acesso a esta tribuna, manifestação que, para mim, significa mais do que uma ovação dirigida ao indivíduo: significa que a grandiosa idéia pela qual me venho bater aqui se acha tão arraigada no espírito de grande parte dos que vão ouvir como no daquele que vai falar. (Muito bem)
De fato, cidadãos, se há uma idéia, se há uma doutrina, se há uma verdade profundamente radicada na opinião pública, em uma pátria, consciente ou inconscientemente, – é sem dúvida a idéia, a doutrina, a verdade republicana. Este fato tão verdadeiro, tão simples em si, este fato demonstra para aqueles que sinceramente deitam os olhos para a história, um grande progresso em favor da vitória definitiva da causa democrática.
Não vão longe os tempos em que aqueles que se batiam pela idéia republicana eram perseguidos, assassinados, arrastados nas praças públicas. Em toda a história deste país enxergam-se horrendas manchas de sangue: não há ainda um século que a cabeça do primeiro que ‘nesta terra se levantou pela liberdade, que a cabeça do Tiradentes caiu do cadafalso aos pés da tirania opressora; generoso mártir, que quis deixar uma nódoa do próprio sangue no solo da pátria abatida, talvez para que as futuras tiranias recuassem de horror e de remorso, diante daquele sagrado, daquele glorioso despojo. (Aplausos)
É assim que foi sempre combatida a causa da república com desmedido furor. Ela, porém, desarmada, sem soldados, sem exércitos (vede a imponente força da verdade!) sempre defendeu-se vitoriosa dos mais desesperados botes da víbora que a assaltava. Triunfou primeiramente daqueles que se levantaram em nome da soberania de Deus, de um Deus que não se conhece, que não se sabe se existe, de um Deus talvez por eles criado, – e que apresentaram certos homens como representantes da vontade divina: triunfou – mostrando que tal soberania por si mesma se destrói, mostrando que o que está acima dos dados do nosso conhecimento, acima do nosso critério, nunca servirá de dado, de critério para a demonstração de uma verdade qualquer, mostrando que semelhante soberania se traduz em uma providência irrisoriamente contraditória, todos os dias vencida pela inflexibilidade das inabaláveis leis que governam o mundo.
Triunfou ainda dos que, batidos ‘neste terreno, se levantaram pela soberania da Razão, em nome da qual proclamaram que ao povo, essencialmente fraco e ignorante, não compete a soberania, que os verdadeiros diretores da sociedade são aqueles que a razão, localizada nos capazes, para esse fim determinar. Destes triunfou a causa republicana demonstrando que, dado mesmo o caso de ser exata a existência de tal razão, não haveria um critério para determinar quais os que a possuíam, que essa razão social havia de ser necessariamente formada da soma das razões individuais, e, por conseqüência, tão fraca, tão falível como a de cada um dos indivíduos.
Finalmente. Cidadãos, o resultado de tão ásperas batalhas foi chegar-se a esta verdade suprema: – acima da vontade nacional nada existe, pelo menos que se conheça; nada há conhecido acima do homem; e, portanto, todos os homens são iguais e livres. As sociedades, pois, não encontram diante de si, para dirigir seus passos, poder de qualidade alguma; dirigem-se por si mesmas. A esta suprema faculdade chamou-se soberania nacional ou soberania do povo, segundo uma linguagem mais antiga e menos científica. Traduzindo-se ‘numa forma política, esta soberania produz o que se chama – República’. (Muito Bem)
Foi então que os nossos adversários, que sempre viveram de sutilezas e de embustes, foram buscar em novo argumento, uma nova arma de ataque. Disseram: pois que a soberania pertence à nação, quando essa nação disser que tal forma de governo (a monarquia, por exemplo) lhe agrada, essa forma de governo será legítima. Sofisma grosseiro foi esse, cidadãos, que, como todo o sofisma, cairá por terra com duas palavras. A humanidade, perpétua em si, extingue-se por partes: as gerações renovam-se; os homens atravessam a superfície da terra para sumirem-se na morte, não deixando mesmo muitas vezes o vestígio da passagem: dentro de meio século uma geração tem sido completamente substituída. Ora, estabelecer à geração de ontem o que deve fazer a de hoje, determinar à geração de hoje o que deve adotar a de amanhã – é simplesmente a geração de ontem quebrar a liberdade da geração hoje, como esta anular a da geração de amanhã. Ora, todas as monarquias, desde o mais torpe absolutismo até a monarquia constitucional representativa, arrogam-se o título de perpétuas. Mas as gerações não são perpétuas, não podem estatuir senão para o que lhes pertence, para o que lhes é atual, nada podem estabelecer com caráter de perpetuidade. Logo não podem estabelecer a monarquia.
Hoje, cidadãos, esta grande evidência penetrou vitoriosa no ânimo de todos os monarquistas brasileiros, ou da maior parte deles. Batidos assim, levados de derrota em derrota, sempre infelizes nos subterfúgios que buscavam, voltam novamente os seus exércitos contra nós, e fazem um último apelo, o apelo dos desesperados, o apelo do náufrago, que lança mão da primeira tábua. É verdade, dizem eles, e é verdade que a república é o mais legítimo governo, a mais legítima forma política, a única forma científica, digna da nossa pátria, como de toda a humanidade, mas o que é também certo é que, no Brasil, a república não é oportuna. Foi assim que entre nós apareceu a doutrina chamada do oportunismo.
Ei-nos chegado ao âmago da questão: trata-se de saber se esta forma de governo tão alevantada, último resultado das derradeiras conclusões científicas, que vai dia por dia assombrosamente engrossando seus aguerridos exércitos, é ou não oportuna para nós.
Não passemos, entretanto, adiante sem notar que esta doutrina do oportunismo é nova no Brasil: veio-nos de uma imitação francesa. Vede, cidadãos, a coerência dos nossos adversários: acusam-nos de imitadores inconscientes dos Estados Unidos, da própria França; mas não sabem olhar para si, não sabem ver que são eles os verdadeiros imitadores, que este último obstáculo que levantam à liberdade da pátria é uma baixa, uma servil imitação.
Mas, vejamos o que é o oportunismo, vejamos em que se funda ele no Brasil.
É verdade que as nações, que a humanidade não marchara aos saltos, que tudo está sujeito a leis rigorosas. A ciência, de degrau em degrau, por uma penosa e longa elaboração, penetrou em tudo; passou do mundo inorgânico ao mundo orgânico e deste ao super orgânico, da pedra bruta ao crânio que pensa e raciocina; a ciência mostrou luminosamente que a humanidade está sujeita a grandes leis de imprescritível rigor matemático. Insensatez temerária seria pretender romper os elos de aço dessa fortíssima cadeia. Assim sendo, é claro que cada cousa, cada instituição política ou social tem, para concretizar-se, seu período próprio, sua época exata. Fazer cada cousa ao seu tempo, acompanhar cientificamente este desdobramento progressivo, nada fazer de encontro as suas imperiosas exigências – eis no que consiste o legítimo oportunismo. Mas porventura, é neste sólido fundamento que se apóiam os nossos monarquistas?
Cidadãos, evidentemente estes adversários batem-se com armas desleais, batem-se com subterfúgios. Eu apresentarei desde já a primeira e a mais formidável brecha deste argumento capcioso: – dizem que a república não pode ser aplicada ao Brasil, porque não é oportuna; mas, cidadãos, provado, como deixei, e como eles, monarquistas, não contestam, que a república é a única forma racional de governo, a única forma de digna de nobreza humana, – claro está que a questão vem unicamente, que toda a questão vem justamente, exclusivamente sobre saber-se se ela é ou não oportuna. Mas os monarquistas combatem a oportunidade da república; dizendo que ela não é oportuna! O que é isto senão cair em um grosseiro círculo vicioso? (Aplausos, muito bem)
Eis aí as armas de combate dos monarquistas de todos os matizes, armas tão fracas quanto pretensiosas. Eu os perseguirei neste terreno falso onde se colocaram. Espero deixar hoje esta questão perfeitamente liquidada.
Quando, entretanto, se vêem opressos pela inflexibilidade de nossa lógica, não raro vemo-los apelar dogmaticamente para um sem número de argumentos, no sentido de demonstrar a inoportunidade da república, argumentos que sobressaem todos pela falta de solidez. Eu procurarei sintetizar essas falsas objeções, buscando traduzir, em poucas palavras, o melhor que me for possível, o pensamento infenso à democracia. A república no Brasil não é oportuna, dizem os meus contrários:
1º Porque a república exige, como governo sábio que é, instrução bastante da parte de seus membros, – e o nosso povo não tem instrução;
2º Porque a república é o governo da opinião, – e no Brasil não há opinião pública;
3º Porque a república precisa de cidadãos ilustres que a dirijam e desenvolvam, – e nós não temos homens em tais condições;
4º Porque o povo ignorante precipitar-se-á necessariamente na anarquia, e, como a anarquia provoca a reação, estes dois flagelos cairão sobre a pátria;
5º Porque devemos aceitar as severas lições da experiência, – e as repúblicas hispano-americanas são um exemplo vivo para fazer-nos [palavra ilegível] diante da idéia e de tal governo;
6º Porque não devemos ser ingratos para com a monarquia, que nos tem dado com mão larga todas as liberdades de que gozam os povos livres.
Tudo isto é afirmado com um ar de dogmatismo que espanta.
Eu tomarei todos estes argumentos, cada um de per si, e, sem presunção o digo, cidadãos, hei de reduzi-los às suas verdadeiras proporções, isto é, – a nada.
Ninguém nega, nós, republicanos, nunca negamos que o povo brasileiro não dispõe de uma instrução como fora para desejar-se. Direi melhor, – os fatos mais irrecusáveis demonstram que é assombroso o estado atual de ignorância que se observa neste país. Mas, o que prova isto? Prova que o governo que há mais de meio século dirige os nossos destinos, que tem sido o único árbitro do nosso desenvolvimento anulando a ação individual por uma centralização terrível, que tem disposto de todas as forças nacionais sem o mínimo obstáculo, prova unicamente que este governo é incapaz, completamente incapaz de fornecer a instrução de cuja falta o povo se ressente: prova que a causa única do nosso atraso é essa monarquia gasta e corruptora, que absorve a poderosa seiva da nação, que derrama rios de dinheiro no sustento das famílias vadias, na prática dos maiores escândalos, e tem sempre as costas voltadas para essa pobre besta de carga que se chama povo, que não lhe implora, entretanto, mais do que um pouco de luz, em troca do suor e do sangue que por ela derrama. (Aplausos)
Se quereis, portanto, que a instrução se divulgue, se quereis arrancar da noite da ignorância esses milhares de concidadãos nossos que nela jazem tristemente, se quereis transformar os escravos inconscientes em cidadãos libérrimos, – sede lógicos – combatei o efeito destruindo a causa, combatei a monarquia, esmagai o trono, e a luz há de cair abundante sobre as cabeças dos nossos compatriotas, acurvadas hoje ao peso do jugo monárquico. (Grandes aplausos)
Mas, cidadãos, esta questão de instrução é, como todas as que levantam os nossos pseudo-oportunistas, uma questão puramente social; vós deveis saber, quase ninguém ignora hoje, depois de mil fecundas experiências históricas, depois principalmente que apareceram as grandes obras de Comte, do chileno Lastarria e de muitos outros pensadores modernos, que as reformas sociais não se podem operar no seio da sociedade senão em um regime político adequado, acomodado à amplitude das exigências dessa reforma que se pretende plantar. A organização política precede a social (apoiados). Que o nosso estado político não comporta o desenvolvimento da instrução não é necessário demonstrar especialmente; nada fala tão eloquentemente como os fatos que todos podem verificar. Neste sistema, todas as forças do governo, em eterna luta contra os esforços populares, absorvem-se nos cuidados da própria conservação: a complicadíssima, a pesada máquina governativa exaure toda a atividade das classes dirigentes. É por isso que esta monarquia anômala não pode trabalhar eficazmente pela instrução: separa do povo, reprime, aperta, nulifica, esmaga todas as tendências da sociedade (muito bem, muito bem). Não é necessário acrescentar que só o governo republicano será capaz de realizar essa aspiração.
Cidadãos, um outro motivo há que me faz crer que a monarquia nunca dará instrução, ao povo: motivo de um grandíssimo alcance prático: é que – a monarquia não tem dinheiro (risos). As importantes fontes de renda deste país tão rico como nenhum outro, esgotam-se pelo escoadouro de pesados e vexatórios impostos, empregados em todas as extravagâncias imagináveis, menos em acudir a nossa primeira e mais urgente necessidade, – a instrução, para a qual destina-se uma verba magra, risível em todos os orçamentos. Este mal não pode ser remediado com a atual forma de governo: porque todas essas despesas são imprescindíveis na monarquia. A todo o momento se estão fechando escolas: mas ninguém sonha em restringir as despesas supérfluas, as despesas de luxo, que faz principalmente certa família vadia, indispensável na monarquia. Tenho aqui, a este respeito, uns apontamentos interessantes, extraídos de um inventário da Monarquia publicado pelo excelente órgão republicano – a República, que aparecia na Corte, e mais tarde aumentados e enriquecidos pelo ilustre tribuno republicano, o Sr. Dr. Martinho Prado Junior. Por esses apontamentos se vê que só a família imperial tem esbanjado a soma considerável de 234.000 contos de réis. Esta quantia era suficiente (não contando-se já os juros) para se edificarem escolas públicas pelo exagerado preço de 10 contos de réis cada uma. E esta, se bem que seja a mais imoral, não é, contudo, a maior sangria monetária a que a monarquia nos obriga. Todos conhecem a sua índole esbanjadora; eu não me demorarei nestes fatos.
Por tudo isto, vê-se que a causa principal, a causa, pode-se dizer, a única do nosso atraso em matéria de instrução popular é a própria monarquia. Como é, pois, que se diz todos os dias, com uma arrogância que revolta, que não podemos ser republicanos, porque o nosso povo não está instruído? Não; o único empecilho que a instrução encontra é o governo monárquico: a vida da instrução depende do estabelecimento da república, é um fato que torna ainda o seu advento mais urgente, mais necessário. Fica assim voltado contra os próprios monarquistas o golpe que nos atiram o que não nos pode atingir.
A 2ª objeção imprudentemente atirada ao campo republicano, fundada na falta de opinião pública, é questão que se resolve de modo idêntico; não oferece maior solidez do que as outras. Em um ponto estou de pleno acordo com os adversários: – o estado atual do país é o mais desolador possível. Nem se pode mesmo supor maior prostração cívica do que essa a que chegou este povo infeliz, dócil à vontade de todos os governos, escravo submisso das imposições que descem do alto.
Tudo isto foi obra exclusiva da ditadura monárquica. Todos sabem que nos primeiros tempos de nossa independência, logo que nos libertamos de Portugal, quando muito mais ignorante ainda era o povo, quando a nação estava no berço e quando também, por conseguinte, o vírus monárquico não lhe tinha ainda invadido o coração, – eram muito mais freqüentes esses levantamentos que acusam a existência de uma consciência nacional: o povo por muitas vezes resistiu à vontade despótica dos mandões; os patriotas mineiros nobremente repeliram as imposições do primeiro imperador, cuja arrogância, mais tarde, quebrou-se de todo aos pés da soberania popular, no dia de mais legítimas glórias deste país, no 7 de Abril. Depois, dia por dia, se foi estancando no amplo coração popular esse nobre sentimento de resistência: a monarquia foi pouco a pouco narcotizando, abastardando, corrompendo, anulando a consciência nacional, – até que chegamos a este estado desesperador, degradante, em que tudo rasteja, todos os homens afogam-se no lodo, para só elevar-se sobre os destroços dos nossos brios a detestável estátua de uma tirania mascarada e arrogante (grandes aplausos). Foi ela que produziu toda esta miséria.
Não temos opinião pública! Mas, senhores monarquistas, como quereis que tenha opinião um povo a quem se arrancam os mais invioláveis direitos; um povo que está privado do direito de sufrágio, do direito de eleger o seu primeiro representante; que está sujeito a ver sua representação enxotada vergonhosamente por uma vontade estranha a sua; um povo que tem sobre o dorso; perpetuamente, como um fantasma, a garra do fisco, arrancando-lhe avidamente o fruto do trabalho honrado? (Aplausos)
Como quereis que tenha opinião aquele cuja boca jaz amordaçada, cujos braços jazem amarrados em um suplício degradante, o rebanho faminto, hipocritamente explorado pelo intruso importuno que empunha o cajado do mundo? (Grandes aplausos) Como quereis opinião sem liberdade, como quereis opinião na Monarquia? (Estrepitosos e prolongados aplausos)
Derrubai esse padrão de vergonhas, destronizai o despotismo, entrega ao Povo o seu próprio governo, proclamai, enfim, a república, – e tereis a opinião que tanto desejais, e tereis a felicidade da pátria. (Muito bem, muito bem)
Como a da opinião pública, a questão da falta de homens, a que se refere a 3ª objeção formulada pelos nossos inimigos, tem uma solução muito diversa da que eles apresentam. “Não temos homens”, dizem eles, “como, pois, quereis proclamar a república? Quem há de sustentá-la e servi-la dignamente?” É verdade que muito poucos homens de bem, de reconhecida reputação, no seio da pequena parte do país que pensa, que muito poucos aparecem ainda à tona dessa grande mediocridade que rasteja. Um jornalista distinto aqui, um parlamentar ilustre acolá e um ou outro que vegeta na sombra do lar, sem conseguir erguer-se, peado pela atmosfera pesada que a monarquia criou – não estes os poucos. Mas, vede a profunda ignorância das que fazem disto sem argumento contra a república, vede como eles não medem o alcance das palavras que proferem, ou, então, como argumentou de má fé! Sim! De má fé: porque é impossível que qualquer homem que sinta o peso das lições da história atire proposições desta ordem. Pois que! Cidadãos, haverá quem ignore hoje que os grandes homens não rebentam espontaneamente do seio da terra? Quem não sabe que os homens são grandes ou pequenos, heróis ou imbecis, segundo a natureza do meio que os cerca, segundo a força da seiva que os alimenta, segundo a época em que vivem? Ninguém ignora que, antes da grande Revolução de 89, apenas uma falange de pigmeus arrastava-se no solo cativo da França; mas quando rebentou a rugidora tempestade que abalou e desfez em pedaços o trono do despotismo, – então, após o estampido da liberdade, as consciências embriagaram-se de luz, os grandes homens brotaram de todos os lados, apareceram aqueles gigantes fantásticos, que assomavam na tribuna, como gênios desconhecidos, agitando e revolvendo, ao sopro eloqüentíssimo do verbo da redenção, o tormentoso mar dos corações populares (aplausos). Os grandes princípios fizeram os grandes homens; a liberdade fez os seus soldados; porque os homens são filhos das circunstâncias; assumem as proporções do seu tempo.
Agora, quereis saber o que é verdade de tudo isto, com relação ao nosso país? O que é verdade é que, ‘neste meio corrupto ‘neste meio apodrecido pela ação maléfica do absolutismo de fatos, raros, raríssimos, serão os que se levantem acima da atonia geral: só podem crescer anões, não podem crescer gigantes (aplausos), e os anões fervem de todos os lados; porque, cidadãos, é uma verdade que quanto mais imundo é o terreno tanto mais vicejam os cogumelos (grandes aplausos). É por isso que vemos agitar-se na lama esse ridículo exército de ratos (risos) que rói o pedestal da monarquia, quando pensa consolidá-lo.
Os homens, portanto, pelos quais suspiram os nossos pseudo-oportunistas, não aparecem – não porque não existam – mas porque falta-lhes o meio, porque este meio atual os amesquinha e sufoca. Se quereis que apareçam homens, se quereis que apareçam ‘nesta terra americana verdadeiros colossos que saibam e possam sustentar nos ombros a arca santa da pátria, por tanto tempo esmagada pelos pés de uma tirania mascarada e torpe, – abalai o trono, abatei a monarquia, – e vê-los-ei surgir do coração do povo, dignos filhos desta soberba terra brasileira. (Aplausos)
Como 4º argumento contra o advento, imediato da forma republicana, os nossos adversários lembram o temor que todos devemos ter de provocar essa situação terrível, na qual os governos constituídos abatem-se no mesmo dia em que se levantam, na qual as mais sagradas prescrições da lei são calcadas pela espada do primeiro ambicioso vulgar que aparecer: situação que tem o nome de anarquia.
Cidadãos, a anarquia, como todo o mundo sabe, como a história demonstra, como a ciência ensina, – não é um estado normal da natureza humana; nem as nações se podem perpetuar em tal estado. Dá-se às vezes um como desmoronamento no próprio seio do universo, como no seio das sociedades. Este fato sucede sempre as infrações que se dão na grande lei que governa todas as cousas: mas após o rompimento, a lei tende de novo a adquirir o seu império, tudo se restabelece, entra no movimento normal, e a quadra da perturbação não fica sendo mais do que um momento na perpetuidade dos tempos. A desordem, a anarquia é essencialmente transitória: temer que ela se perpetue é fazer profissão de ignorância.
Bem conheço que, depois desta profunda desmoralização, que só a monarquia teve a rara glória de infundir em um juiz americano, bem vejo que, depois deste apodrecimento geral, – é bem possível que os primeiros dias da república não sejam dias de paz para todos. Porém, dado mesmo o caso que isto aconteça, poderá, por ventura, ser durável essa desordem? Nunca houve maior possibilidade de perpetuar-se a anarquia do que depois da Revolução Francesa, que foi chamada a eliminar brusca e radicalmente uma ordem social acumulada pela ação de muitos séculos: entretanto, o estado de anarquia foi rápido, foi um ápice, comparado com a enorme porção de séculos de atraso que se opunham à nova ordem. Entre nós a questão é exclusivamente política: não temos uma pesada e resistente ordem social para combater e destruir: muito menos, portanto, devemos temer a anarquia.
Em tudo isso eu só descubro um perigo sério, sem aplicação, todavia, ao Brasil, como mostrarei: é o perigo da reação, de que os adversários nos apontam um exemplo na França. Passado o primeiro impacto da Revolução, Bonaparte soube sufocá-la ao meio, fazendo pesar a lâmina ensangüentada de sua espada na balança das liberdades francesas. Este grande déspota conseguiu anular as garantias que o povo francês tinha conquistado pelo preço do próprio sangue, quebrar a altivez de uma nação valente e levantar acima de toda a França a sua estatura de guerreiro, que, ainda que fosse grande, desaparecia, contudo, perto da que diante dele se erguia. Foi uma reação, a reação da Monarquia, a reação do despotismo. A ela se prendera todas as outras que, mais tarde, assolaram a França. Mas, pergunto eu: No Brasil será isso possível? Não. A reação trazida por um ambicioso não é possível aqui, pelo próprio caráter do Povo Brasileiro, povo emocionalmente manso, comercialmente pacífico, incapaz de seguir fascinado o rastro de sangue de um bandido feliz. Só mesmo na França, cujo espírito fogoso, educado nas cavernas da Idade Média, facilmente se deslumbra diante do brilho de uma espada conquistadora, se mesmo na França Napoleão não conseguiu sustentar-se por largo tempo sobre o trono usurpado à boa fé dos compatriotas, – Quem o conseguirá entre nós, onde os fatos consumados têm uma grande força, onde os interesses individuais falam de perto a todos os homens? São os próprios monarquistas que falam-nos todos os dias da índole pacífica do nosso povo.
Demais as reações têm também existência transitória. Aí está para prová-lo, exemplo que acabo de apontar, o exemplo de Bonaparte, cujo olhar de águia domava os mais temerosos adversários; se mesmo este gigante viu-se em breve obrigado a rolar do trono que para se levantara, muito menos, aqui, um bandido medíocre, saído da sombra e da lama das revoluções, poderá no seio da livre América levantar a espada vitoriosa. E, se esse bandido aparecer, verá sumir-se no dia seguinte. Mostrar-lhe-emos o exemplo de Rosas, enxotado do seio generoso da república Argentina, pela vontade enérgica de um povo livre: mostrar-lhe-emos o exemplo de Maximiliano, que não conseguiu tirar a bandeira imortal da república mexicana, e cujo cadáver [da jovem América] foi cair ensangüentado e frio na velha Europa, sobre os degraus do trono do grosseiro déspota que o havia enviado para essa maquinação infame (muito bem). Nós não temos raças dinásticas, não temos tradições monárquicas: podemos ter quaisquer tradições; monárquicas não. Quem, pois, será o aventureiro? Crede, cidadãos: a anarquia e a reação são impossíveis aqui; mas, quando mesmo elas sobreviessem, eu já mostrei que são passageiras, que são transitórias, que extinguir-se-iam imediatamente, que não podem, portanto, constituir um obstáculo para impedir que nós caminhemos para a liberdade. Há, porém, uma outra anarquia de que ninguém se apercebe, mas que todos sentem; é a anarquia tácita, encoberta, que surdamente rói o coração da sociedade; é a anarquia criada pela indiferença que a centralização monárquica infundiu em todos os espíritos. Essa é a mais perigosa e terrível, a que mais dura, a que assoberba atualmente a sociedade brasileira. Quebremo-la pela base; estabeleçamos pela república a atividade e o acordo de todos os espíritos.
É ainda por este infundado temor de uma anarquia que não compreendem, que os monarquistas apresentam-nos constantemente, com embaraços às nossas generosas aspirações, o exemplo das Repúblicas hispano-americanas. Esta questão das repúblicas hispano-americanas tem sido sempre o cavalo de batalha dos monarquistas enragéa.
Para mim, cidadãos, nunca houve lembrança tão infeliz como a dos que foram achar tal argumento: 1º – porque essas repúblicas conseguiram estabelecer a forma de governo por que se regem com um estado de instrução muito inferior ao nosso atual, o que prova que para nós muito mais fácil seria assentá-la hoje; 2º – porque a causa única das perturbações por elas sofridas é a natureza do gênio espanhol, que não foi a tempo refreado, como prova a própria Espanha que tem sofrido piores comoções, sendo monarquia; 3º – porque aparece tão grande, tão nítida, tão clara, com esta confrontação, a superioridade do governo republicano sobre o monárquico, que os pseudo-oportunistas deviam recuar diante de tal exemplo. De fato, cidadãos, é tão superior ao nosso governo daquelas repúblicas, que mesmo nadando elas em sangue, sempre presas de correrias, de sedições muitas vezes injustificáveis, debatendo-se no mar das mil comoções políticas que ali todos os dias se manifestam, – o progresso flutua à tona das revoluções, animado pelas instituições livres. O Estado Oriental do Uruguai e a Confederação Argentina, as duas mais acusadas * possuem uma soma de instrução popular espantosamente superior à nossa; ** têm os seus pampas cobertos de vias férreas, como nós estamos longe de possuir; têm o correio grátis para os jornais e obras impressas; os direitos da alfândega são insignificantes, os impostos limitadíssimos, porque o Estado tem muito pouco que despender, e muito menos terá ainda quando sua vida política serenar de todo, quando despedir o exército, porque a liberdade não precisa de força para sustentar-se, porque a força da liberdade é a mesma liberdade. (Muito bem)
Além disso, os monarquistas, que argumentam, para oporem-se ao estabelecimento da república, com a raça, com a índole, com a educação do nosso povo, não têm o direito de ir buscar um paralelo entre nós, brasileiros, e os espanhóis: 1º – porque a nossa raça, modificada, pelos agentes físicos e intelectuais, climatéricos e industriais, deriva-se extraordinariamente mesmo da portuguesa, quanto mais da espanhola, já diferenciada daquela, apesar de terem ambos tido o mesmo, ou quase o mesmo, berço? 2º – porque os nossos costumes são diametralmente opostos aos das Repúblicas hispano-americanas. Por conseguinte, se a raça e os costumes não têm valor algum, para que nos falam neles os monarquistas? E, se têm, visto que a nossa raça, a nossa índole, os nossos costumes diferem essencialmente dos das repúblicas hispano-americanas, como é que se apontam esses países como espantalhos à futura República Brasileira, quando não há paridade alguma?
[palavra ilegível] daqui que tal exemplo é uma monstruosa banalidade. Se ele tem algum mérito, é certamente o de provar contra a monarquia, o de provar a favor da república.
Refutemos, cidadãos, a 6ª e última objeção que nos fazem os inimigos da democracia. Dizem-nos eles a todo o momento: “Sois ingratos para com a monarquia, que vos tem cercado de todas as garantias. Para que quereis derrubar uma forma de governo que vos tem dado todas as liberdades, que vos garante a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, tudo, enfim, que não vos daria a melhor república?” Cidadãos, é preciso, antes de tudo restringir esta declamação dos inimigos:
Não são tantas as liberdades de que gozamos: por exemplo: falar contra a existência de Deus é um crime; falar contra a imortalidade da alma é um crime (risos): falar contra os artigos da Carta Constitucional é um crime. Muito longe eu iria se quisesse mostrar tudo o que as leis escritas dizem contra a liberdade. Eu mesmo, que prego neste momento a grandeza da democracia, que defendo-a dos injustificáveis ataques de inimigos desleais, – se fossem cumpridos certos artigos do Código Criminal, – teria de descer desta tribuna pelo braço de um [palavra ilegível]. Se o governo não manda executar essas disposições terminantes e claras, não temos a culpa disto: mostra simplesmente que é fraco, que é inepto, que não tem força para fazer valer a lei, que não é digno de respeito, que não é digno desta grande terra (aplausos): ou, então, o governo trata-nos com o mais repugnante dos artifícios: combate-nos com o silêncio, com a indiferença cinicamente estudada, a pior de todas as armas, nas mãos de um inimigo perverso. Esta última hipótese é, com certeza, a verdadeira: a monarquia muito de propósito não põe em prática as disposições tirânicas de suas leis. Ela teme provocar essa luta desesperada, a que recorrem todos os desprotegidos da justiça; ela sabe que a perseguição apressa a vitória da idéia, sabe que o martírio retempera a força e o valor dos apóstolos de uma grande causa. Não: essa tolerância embusteira não nos convém, a nós republicanos. É minha convicção profunda, cidadãos, que no dia em que nos arrebatassem estas minguadas liberdades, no dia em que os nossos irmãos de combate fossem arrastados ao calabouço, à prescrição, ao degredo, no dia em que o despotismo emboscado, que hoje zomba de nós, se resolvessem a mostrar abertamente as afiadas garras que possuem, – nesse dia havia de acordar finalmente a consciência adormecida e congelada no seio dos oprimidos, e desta monarquia torpe e insolente não ficaria restando mais do que a vergonhosa lembrança, como um borrão eterno nas páginas da nossa história. (Grandes e prolongados aplausos)
E dizem ainda que devemos ser gratos à monarquia! Não conheço maior insensatez do que a dos que afirmam que a ela devemos os foros de liberdade que possuímos hoje, que a ela devemos o próprio direito de acená-la e combatê-la. Os direitos do povo não são presente de ninguém: são legítima e gloriosa conquista sua, conquista obtida em combates sangrentos contra os déspotas de todos os tempos, a custa dos mais heróicos sacrifícios, dos mais cruentos martírios. Não! A monarquia nunca nos deu liberdade; quando nossos avós quiseram a liberdade, arrancaram-na à força de suas garras assassinas: quando a monarquia teve o poder nas mãos, nunca nos deu liberdades: deu-nos ferros e grilhões para talharem-nos os pulsos, deu-nos a mordaça infamante, que nos fazia morrer nos lábios o grito da revolta (grandes aplausos). Aí tendes o que nós devemos à monarquia.
Cidadãos, parece-me que tenho respondido a todas as objeções, a todos os argumentos levantados contra aqueles, em cujo número eu estou, que entendem que deve estabelecer-se já, imediatamente no Brasil a forma republicana. Vós pudestes apreciar o fundo e a solidez dessas pobres objeções. Apelo agora para vossas consciências: Por estes motivos, por estes argumentos, que eu acabo de destruir diante de vos, poder-se-á, por ventura, opor um obstáculo sério à república? Não; tudo isto tem efeito muito diverso: tudo isto prova contra a monarquia. Vós deveis ter notado, cidadãos, que todos esses ataques inconsiderados que com tão grande arrogância nos são dirigidos, voltam-se justamente contra os que no-los dirigem; e seu espírito é um só: o de provar que a monarquia é a causa única de todos os atrasos, de todas as misérias que sofremos, que o seu tempo acabou-se, que tornou-se inoportuna, que chegou, por conseqüência, a urgente oportunidade da república. (Muito bem)
Somos nós, republicanos, por conseguinte, os verdadeiros, os legítimos oportunistas, porque sentimos, palpamos as necessidades da pátria e aplicamos-lhe pronto remédio; inoportunistas são esses que resistem a uma lei imperiosa, por todos sentida: são esses que pretendem em vão amparar nos braços frágeis um ruinoso edifício, que se vai todos os dias esburacando, sem corresponder aos interesses que se transformam, às necessidades surgem; são os monarquistas.
E, entretanto, cidadãos, ainda há quem tenha o arrojo de chamar-nos utopistas e sonhadores. Utopistas nós, que discutimos, sem recuar uma linha, no terreno severo da prática, no campo exato e positivo da ciência! Sonhadores nós, que observamos atentamente o passado, que compulsamos o presente e propomos as urgentes medidas que ele reclama! Dizem que nós queremos arrastar para o presente uma ordem de cousas que está no futuro, que sonhamos um estado inoportuno para nossa pátria. Admitamos que isso seja exato. Agora pergunto eu: quais são os maiores sonhadores: os que querem a todo o transe sustentar e perpetuar um presente imprestável, que foge continuamente, – ou os que tratam de destruí-lo? Os que se levantam para desenterrar um passado morto e apodrecido na poeira dos tempos, – ou os que pensam no futuro, que, ao menos, será um dia uma luminosa realidade? Os monarquistas ou os republicanos (muito bem, muito bem)? Neste grande século, que abateu definitivamente as soberanias de fato, para elevar as soberanias de direito, ‘nesta grande, ‘nesta vasta, ‘nesta belíssima e jovem América, destinada a ser o refúgio e o mais alevantado altar da liberdade, – os sonhadores, os únicos sonhadores são os monarquistas. (Aplausos)
E esta faculdade de sonhar ingenuamente, esta propensão para viver em um sonho eterno tem produzido vários efeitos singulares no modo de pensar dos nossos inimigos. O principal deles e o mais notável consiste em acreditarem na chamada regeneração da monarquia, em acreditarem que se possa um dia consertar esta máquina desmantelada já pela lógica fatal das cousas. É partindo deste descomunal absurdo que os monarquistas nos querem convencer de que a própria monarquia nos há de um dia fornecer os meios de fundar pacificamente a república, para a qual, dizem eles, ainda não chegou o tempo. Dizem até mesmo, cidadãos, que a Carta Constitucional, que as leis orgânicas abrirão naturalmente passagem para o definitivo assentamento da forma republicana. Isto, para mim, não é mais do que um sofisma protelatório, ou um erro funesto, infelizmente alimentado ainda por muitos correligionários meus; erro que eu espero, entretanto, ver muito breve abandonado por todos.
É para mim uma convicção profundíssima, filha de largo estado, e não dos ímpetos fogosos da mocidade, – que, no estado atual das cousas, os meios puramente pacíficos, os meios legais – nunca darão vida à república no Brasil, e tenho, para pensar assim, os mais fortes motivos.
A própria índole do governo monárquico é, antes de tudo, o primeiro obstáculo que impedirá sempre o advento normal de toda e qualquer instituição que lhe fira os interesses, e principalmente da república. A monarquia, como já vos disse, tem a veleidade de supor-se perpétua; passar dela para a república é abster-lhe esta pretensão; a monarquia; por conseguinte, resistirá à república com o desespero de quem defende sua própria vida.
Todas as instituições monárquicas, que poderosamente influem na marcha da civilização brasileira, participam necessariamente dessa índole maléfica. Composto de velhos, que dispõem de poderes vitalícios, e, além de vitalícios, – irresponsáveis, surdos a todos os reclames do presente, e a todas as previsões do futuro, impressionados fortemente pelas tradições do remoto passado que lhes foi berço, – o Senado, que está, por um vício fatal da Carta Constitucional, armado do formidável gládio reacionário, com o qual corta a cabeça a toda a reforma generosa que se levanta no seio da Pátria, o Senado, cidadãos, será um inimigo perpétuo, uma perpétua muralha de encontro a qual se irá despedaçar toda a tentativa de reforma pacífica radical.
O poder moderador é, segundo a linguagem servil Carta Constitucional, a chave de todos os outros poderes, o primus inter povos. Este poder terrível é exercido privativamente pelo imperador; ora, a república é a morte, é o desmoronamento do trono em que se assenta o imperador: por conseguinte, o imperador, a menos que não queira buscar o próprio suicídio, a menos que não seja inepto, – resistirá sempre à república, armado da lei.
Uma voz: O povo o obrigará.
O orador: É onde eu quero chegar.
Há, cidadãos, um quarto motivo ainda, que me faz desesperar completamente de se poder jamais, pelos meios pacíficos, pelos meios legais, dar entrada à república em nossa pátria: entendo que as reformas de que depende qualquer progresso para a liberdade, a reforma de que depende a mudança da forma de governo, que é o mais essencial de todos os progressos, as reformas chamadas constitucionais – não se podem realizar, segundo a letra expressa da carta, sem a intervenção do Senado e do imperador. (Sussurro)
Esta opinião tem sido asperamente combatida por muitos homens bem intencionados, no louvável propósito de arrancar das mãos do rei parte do seu poder absoluto de fato; a verdade entretanto aparecerá em toda a sua nudez desde que compulsemos a letra da lei. Para mim é questão vencida. Diz a Carta Constitucional que, tratando-se de uma reforma nestas condições e sendo aceita a necessidade de tal reforma (lê): “Art. 177. – Na seguinte legislatura, e na primeira sessão, será a matéria proposta e discutida, e o que se vencer prevalecerá para a mudança ou adição à lei fundamental, e, juntando-se à Constituição, será solenemente promulgada”. Cidadãos, eu não quero nem posso demorar-me nestas considerações; quero apenas constatar este fato, que considero importantíssimo. Serei breve: (lê) … na seguinte legislatura… na primeira sessão… Pergunto eu: o que é uma legislatura? O que é uma sessão? Responda o artigo 177: (lê) “Cada legislatura durará quatro anos: cada sessão anual quatro meses”. A reunião, pois, da assembléia geral durante quatro meses é uma sessão; consiste a legislatura nos trabalhos durante quatro anos da mesma assembléia geral. A assembléia geral consta das duas câmaras, da dos deputados e da dos senadores, segundo o artigo 14. Ora, se a reforma de que trata o artigo 177 deve ser discutida na seguinte legislatura e na primeira sessão: se estas palavras, legislatura e sessão, referem-se às duas câmaras simultaneamente; segue-os que as duas câmaras intervirão na reforma; mas o Senado é uma destas duas câmaras: logo o Senado intervirá. Mas – dizem os que combatem esta conclusão tão lógica e tão clara – a constituição positivamente declara que os eleitores conferiram poderes especiais aos deputados, poderes que não conferem aos senadores. Nada mais fácil de responder: É porque a Carta entende que os senadores não precisam de tais poderes especiais, ou, então, que já os têm implícitos no mandato vitalício. Demais, segundo a doutrina constitucional, não há lei sem a aprovação das duas câmaras e a sanção do imperador: (lê) Art. 12 – “O poder legislativo é delegado a assembléia geral, com a sanção do imperador”. Em parte alguma a Carta faz exceção a esta regra; por conseguinte, as reformas constitucionais também estão sujeitas à ela. Diz ainda o artigo 177 que, depois de aprovada a lei será solenemente promulgada. A forma da promulgação solene aqui está no artigo 69 (lê): “Art. 69. Dom (N), por graça de Deus… etc. fazemos saber… etc. que a assembléia geral decretou e nós queremos a lei seguinte… etc”. A assembléia geral, repito, compõe-se das duas câmaras: o imperador declara que sanciona; logo – o Senado e o imperador entram na formação das leis constitucionais.
Eis aí a verdade, cidadãos. A verdade é que toda a reforma que nesta terra tentar levantar um padrão de liberdade, toda a reforma radical – terá forçosamente de passar pela guerra do Senado e do rei, terá de ser mutilada e abatida.
Suponhamos, entretanto, que toda esta argumentação seja falsa, suponhamos que o rei e o Senado não tenham de intervir nas reformas constitucionais, e que estas devam ser feitas apenas pela câmara dos deputados. Vós sabeis que esta câmara é feita pelas baionetas de um ministério patrocinado pelo imperador que pode isentá-lo de qualquer responsabilidade: este ministério é livremente escolhido pela vontade do imperador; o ministério faz a câmara; a câmara faz lei; esta, filha da subserviência, não pode traduzir-se em uma reforma no sentido de estabelecer a liberdade. Suponhamos, porém, ainda que a câmara fosse bastante independente e os ministros bastante honestos para não sofrerem a pressão do mandão. Ainda sem, o imperador, com um único traço de pena, sem prestar contas a ninguém, – pode enxotar o ministério e despedir a câmara! Ora, uma câmara dissolvida não faz lei; portanto, esta será feita por outra câmara eleita ao sabor do imperador, ou, melhor – o imperador é quem faz a lei. Tudo isto encontra-se (mostrando a Constituição) neste papel sujo que chamam – Constituição Brasileira. (Palmas: prolongados aplausos)
Cidadãos, à vista destes fatos irrecusáveis, à vista desta demonstração talvez fastidiosa, (não apoiados) mas certamente muito exata, argumentação que não deixa rombo por onde possa penetrar o inimigo, me parece que a triste verdade, que a tristíssima conseqüência é que os meios brandos, que a vontade mansamente manifestada do povo, que é o único soberano legítimo, – não são capazes de fazer nada digno da liberdade, neste pobre país. Ou nós seremos perpetuamente ingênuos, ou haveremos de apelar para o único meio que nos resta: tomar pela carreira única que temos diante de nossos passos; onde não nos poderão impedir os raios que suspende na [pequeno trecho ilegível]; devemos seguir pela carreira que se abre toda a vez que se levanta o vulcão da consciência nacional no seio opresso do povo; onde as forças dos déspotas se abatem; porta única aberta aos soldados da liberdade; devemos tomar pela carreira da revolução. (Calorosos aplausos)
Cidadãos, ainda quando a revolução fosse tão bárbara, tão feroz, como a pintam os seus inimigos, – ela não deixaria por isso de ser o último recurso, o recurso extremo daqueles que desesperam da justiça estabelecida: nem há injustiça, toda a vez, que se trata de firmar a própria justiça. Acusam-nos de querermos a guerra, e dizem que a guerra é contrária à democracia. Sim! Queremos a guerra, mas a guerra que extingue a guerra, a guerra que consolida a paz.
Dizem que a revolução, que o emprego da força é incompatível com a república, incompatível mesmo com as prescrições da ciência. Entendamo-nos, cidadãos. Esta palavra Revolução é tomada em dois sentidos, em duas acepções diversas. Segundo cada uma destas acepções o seu fim é diverso também. Uma é injusta, outra é justa; uma é perturbadora, outra é humanitária; uma é arbitrária; outra é científica. A revolução ou se manifesta como uma doutrina social, ou como um fato.
Como doutrina, ela consiste (eu serei breve, estabelecendo esta distinção) consiste em criar na fantasia enferma uma quimera qualquer e querer, por força, acomodar a ordem real das cousas a essa quimera fantástica. Os sectários desta doutrina não compulsam os fatos, não medem a distância que vai do real ao ideal, não palpam as necessidades sociais, rebelam-se com a maior insensatez contra as mais intransgressíveis leis da evolução da sociedade. A profunda anarquia que caracteriza o estado atual do mundo civilizado é produto exclusivo deles. São eles que têm dado em terra com as liberdades públicas nas nações em que elas mais forte se ostentavam. São eles que têm aberto as mais dolorosas feridas por onde ainda hoje sangra o peito da Humanidade. (Muito bem)
É cousa muito diversa a revolução considerada como fato. Eu chamá-la-ia de preferência – Revolta, porque este termo me parece exprimir melhor a idéia que a ela se liga. É o exercício de um direito, a reivindicação, a reação da liberdade usurpada, a manifestação da vontade soberana. O fato revolução, a revolta funde-se nesta verdade incontrastável: – todo o direito de ser reconhecido e garantido a todo o transe: quando os que têm o dever de reconhecê-lo não se submetem espontaneamente, devem ser obrigados a curvar-se a ele. Uma idéia levanta-se no seio de um país qualquer, lança fundas raízes em todas as consciências, torna-se uma aspiração nacional; o governo, entretanto, desse país obstina-se em repeli-la, contra a vontade geral do Povo: ‘neste conflito, pergunto eu, quem deve ser o vencedor – o mandatário ou o mandante, o governo ou o povo? Certamente deve vencer o povo, deve triunfar a nação, deve triunfar a soberania. No fato de tornar efetivo este sagrado direito, contra a vontade resistente dos déspotas, é que consiste a revolta.
Vede agora se têm razão aqueles que nos acusam de rebeldes às prescrições da ciência*, de inimigos dos sentimentos humanitários, supremo ideal da democracia. A revolução, assim compreendida, é um fato naturalíssimo, um poderoso auxílio do progresso, uma necessidade fatal destes tempos, em que há ainda infelizmente cegos insensatos que pretendem travar as rodas ao carro da liberdade.
É a revolução, assim compreendida, que tem promovido os maiores benefícios para a humanidade, esmagando os déspotas de todos os tempos; é ela que tem alevantado a consciência de todos os povos que mais altos se ostentam hoje; é ela o último apelo dos que se vêm perseguidos pela lei, mas amparados pelo direito, será ela também, amanhã, o ato solene da redenção deste grande povo brasileiro, por tanto tempo amesquinhado, carregado às plantas de uma tirania covarde (aplausos). Eu tenho fé, cidadãos, que esta nossa belíssima, que esta nossa estremecida pátria há de um dia fatigar-se de sofrer sobre a cândida [palavra ilegível] o jugo áspero da escravidão. No dia em que aparecer a descoberto o vulto hediondo do despotismo, que se oculta hoje nos antros da hipocrisia; no dia em que na porta desse parlamento, onde parece estar gravado o sombrio verso do Dante.
Per me se va tra la perduta gente,
cair a máscara do rosto desses representantes falsários, que iludem a vontade popular e mentem à própria consciência; no dia em que não houver mais um caráter a corromper, mais uma liberdade a arrancar das mãos do povo; ‘nesse dia – receberá fatalmente a impetuosa rajada revolucionária, que há de acabar por varrer do seio desta grande terra os últimos vestígios de todas as vergonhas que nos assoberbam. (Grandes aplausos)
Uma voz: Nesse ponto, apoiado.**
O orador: Bem sei que esta terrível idéia de contemplar um mar de sangue derramado de corpos irmãos – aperta o coração, confrange a alma, dói sinceramente no fundo da consciência. Mas nem toda a revolução precisa, por ser o emprego da força, de ser sangrenta. Tentemos por todos os meios pacíficos, pelo preço dos maiores sacrifícios, pela mais tenaz abnegação, enxotar do nosso seio a fera que nos degrada. A república é legítima, a república é oportuna: procuremos firmá-la, quebrando a vontade dos déspotas pela mais digna de todas as revoluções, pela revolução que não derrama sangue e não faz cadáveres. Mas se, entretanto, o poder resistir, se a tirania levantar em torno de si, contra a vontade nacional, uma floresta de baionetas, devem, porventura, recuar atemorizados e vencidos os soldados da liberdade? Não! Se a luta for imprescindível, se imprudentemente a ela nos provocarem, aceitamo-la, lutemos pela justiça, pelo direito, pela liberdade, embora seja necessário derramar um mar de sangue, – contanto que do seio agitado desse mar sombrio se levante esplêndida e serena, lavada de todas as nódoas, limpa de todas as máculas, a veneranda imagem da pátria. (Estrepitosos e entusiásticos aplausos. O Orador é cumprimentado e abraçado por quase todas as pessoas que, em crescido número, se achavam no recinto).
* É notável que os defensores deste desacreditado regime monárquico, em suas invectivas, só se lembrem de falar-nos destas duas Repúblicas. Por que não falem do Chile? Da Colômbia? Da Nova Granada? É sabido que esses países Republicanos têm desenvolvido um progresso pacífico tão surpreendente que deixa muito longe o grande Império de Cruz. Os monarquistas ou esquecem isto de propósito, ou porque não conhecem os fatos: são mentirosos, ou ignorantes.
** Da população da Confederação Argentina 7% sabem ler e escrever, as do Brasil; apenas 3 ½ %.
* [Nota ilegível].
** O orador não ouviu este aparte.
