Revista Estudos Políticos

A Situação, por Assis Brasil

Posted in Nº 0 (2010/1) by Revista Estudos Políticos on junho 1st, 2010

Nota sobre publicação original: baseada em notas taquigráficas de conferência pública realizada por Assis Brasil em 14 de Agosto 1905 na Biblioteca Pública Pelotense. O texto publicado foi revisto pelo orador, segundo consta na edição ANNAES da Biblioteca Pública Pelotense. Livraria Comercial: Pelotas, Rio Grande do Sul, 1905.

A Situação foi conferência realizada por Assis Brasil na Biblioteca Pública Pelotense, em agosto de 1905, pouco depois publicada com base em notas taquigráficas revistas pelo autor. O original disponível no arquivo Assis Brasil traz pequenas correções manuscritas com a caligrafia do autor, as quais foram incorporadas à versão ora publicada.

A Situação é uma defesa explícita do experimento Republicano no Brasil. Movido por uma pretensão de neutralidade analítica, o autor pretende diagnosticar a situação política do país recém liberto da monarquia, sem ceder aos equívocos da memória benévola com os tempos da corte.

Em meio a uma geração de desencantados Republicanos, Assis Brasil denuncia o pessimismo Brasileiro como “enfermidade moral”. Como contraponto a um tal vício de origem, o autor se empenha em identificar sinais de prosperidade da República nascente, embora cônscio da distância entre o cenário vislumbrado e aquele imaginado pelos antigos propagandistas do novo regime, dentre os quais se inclui.

A questão dos limites territoriais é um dos temas tratados pelo autor como pauta Republicana, em nítida vantagem comparada com relação ao tratamento que a monarquia despendeu à questão. A anexação da Cisplatina pelos uruguaios, em tempos déboles e monárquicos, é contrastada com o vigor Republicano que expandiu as fronteiras do país.

É importante mencionar que Assis Brasil ocupou papel chave neste movimento expansionista Republicano. Em 1903, foi convidado por Rio Branco para compor a representação Brasileira na questão do Acre, juntamente com Rui Barbosa e o próprio Ministro. Temporariamente afastado do posto diplomático em Washington, Assis Brasil veio cumprir a missão que culminou com a assinatura do Tratado de Petrópolis, encerrando a contenda territorial com vantagens para o Brasil.

Além das terras, os primeiros anos de República já teriam avançado significativamente nas políticas imigratórias, na construção de estradas de ferro e na produção de café, três temas identificados como centrais para o progresso do país. Se o empenho de Assis Brasil em destacar qualidades do precário desempenho Republicano não chega a caracterizar um discurso propriamente entusiasta do estado das coisas, busca, isto sim, refutar o saudosismo monárquico e fixar a idéia de República como regime permanente para o país. As insatisfações com a cena política e social são atribuídas aos desajustes entre a realidade e o modelo Republicano, e não ao modelo em si.

O Sr. Dr. Assis Brasil (prolongada salva de palmas) começa dizendo que, no momento de penetrar nesta casa, que tanto ama e respeita e admira, lhe perguntara distinto representante da imprensa local – se pretendia improvisar a sua conferência, ou se a trazia escrita. “Trago-a, sim, escrita”, exclama com força o orador, “trago-a escrita no coração.” Vai faltar a velhos amigos, que de outro modo não considera o público desta generosa terra de Pelotas, e vai versar assuntos que têm constituído o mais caro e constante objeto de sua vida de pensador, de homem preocupado com o bem real e positivo da sua Pátria. Está sempre pronto para dissertar sobre tais objetos, ainda que sem os floreios de eloqüência que uma conveniente preparação facilita. Faltou-lhe tempo para tal. Do que vem dizer, se a substância é meditada e definitivamente incorporada ao seu sistema de idéias e opiniões, a forma, as palavras terão de ser improvisadas no momento, que os últimos tempos de vida instável do orador não lhe permitiram outro método. Vem, entretanto, confiante, certo de que a palavra, desataviada e pálida embora, traduzirá com fidelidade o pensamento.

Essa confiança dar-lhe-á a benevolência do auditório, a quem o orador agradece desvanecido o fidalgo acolhimento que lhe acaba de dispensar. Nem é o orador hóspede inteiramente estranho, senão aos novos que o escutam, ao menos aos da geração madura e à própria tribuna ilustre da benemérita Biblioteca Pelotense. Ainda recentemente um cavalheiro que foi membro conspícuo da Diretoria – por volta de um quarto de século – lhe lembrava que o orador fora provavelmente a primeira pessoa que fez uma conferência pública em Pelotas. Era então humilde estudante de São Paulo, um quase adolescente, acercando-se apenas do mundo real, em meio desse tropel extravagante de sentimentos que povoam a alma da juventude – timidez e ousadia, desalento e bravura, angústias e delícias: mas, enfim, a nota do otimismo e entusiasmo era a que lhe cantava mais alto no peito, incendiado já do fogo sagrado que começava então a lavrar francamente entre os moços do seu tempo, lançados na vida entre o crepúsculo de um regime que se desmoronava e a luminosa interrogação que se desenhava no Oriente da Democracia. (Aplausos)

É-lhe grato hoje, quando se sente ir com pé mais seguro nel mezzo del camino di nostra vita, evocar esse passado saudoso, do qual, entretanto, não poderia dizer, continuando a valer-se do divino Poeta: Nessun  maggior dolore che ricordarse del tempo felice. Nela miseria!

Porque, em verdade, o orador ainda é o mesmo, inspirado nos mesmos princípios, possuído do mesmo ardor, animado de iguais esperanças. Não recorda que título escolheu para essa antiga conferência: lembra-se, porém, perfeitamente da tese, que era relativa à necessidade da disseminação da instrução popular e incapacidade do regime centralizador para realizá-la. Daí a conveniência de ser adotado um regime de plena autonomia, a descentralização, o sistema federativo, enfim, que por sua vez, só poderia implantar-se com a República.

Velhos e honrados representantes da situação então imperante ouviram em silêncio, ou mesmo com benévolos aplausos, as observações do orador. Prova de que elas foram comedidas e respeitosas. A tolerância que não lhe negaram os monarquistas, que tinham, aliás, no canto da boca, um sorriso de descrença para as profecias do orador, não a recusará à brilhante Assembléia que se estende diante dos seus olhos, nesta hora em que a Democracia, se já não é uma esplendorosa realidade se acha ao menos implantada, afirma o orador. Erros e fatalidades! Erro – foi irmos colonizar de preferência o clima quente e úmido, propício para a árvore e dissolvente para o homem. Fatalidade – o termo desde logo descoberto os veeiros de ouro e as jazidas de diamante que fascinam o homem, que o seduzem, que o desviam da única mineração fecunda e produtiva – a agricultura – e lhe perturbam o cérebro com a febre diabólica e entontecedora, falaz e ofuscante da fortuna instantânea.

Os americanos do Norte só acharam as minas depois de estarem enriquecidos e fixados ao solo pela agricultura.

O erro de preferir o clima quente e úmido, com as suas ilusórias produções fáceis e abundantes, ao clima frio e seco, foi partilhado por todos os estadistas da metrópole, até o último e mais eminente deles, Pombal, que mandava o seu próprio irmão conquistar e defender mais e mais terra no vale amazônico e contentava-se com instruções inócuas aos poucos defensores do Sul até a colônia do Sacramento, entre elas a ridícula recomendação de armar e vestir extravagantemente os soldados, para infundir terror aos espanhóis.

Se já então houvesse idéias sociológicas solidamente verdadeiras, os olhos dos descobridores e dos pioneiros da conquista a quem tocou sustentar-lhes a obra, ter-se-iam alongado para o sul. Aí estava o clima frio e seco, o clima temperado, o mais próprio assento do homem branco, condição indispensável da saúde e da energia, que explicam a existência das grandes nações.

O Sul do Brasil, ou melhor, o extremo Sul, que apenas penetra um pouco além das fronteiras da zona tórrida, e que já é hoje considerado a parte mais própria para sustentar e desenvolver o homem em toda a integridade das suas forças e onde os nossos irmãos do norte já vêm e devem vir retemperar-se das perdas do organismo, – foi conquistado e ocupado espontaneamente, sem auxílio algum da metrópole, que já nenhum esforço fizera para que a Linha de [palavra ilegível] do Papa Alexandre VI lhe atribuísse maior quinhão meridional do Novo Mundo.

A conquista e ocupação do território que formam atualmente o nosso Estado devem-se ao espírito de aventura do povo de então, essa mesma sede de fortuna rápida que o orador acaba de estigmatizar, mas que, cumpre reconhecer, teve na nossa história, como tantas outras cousas mais, alguns bons efeitos. Foi essa febre alucinante de ouro que deu origem à formação das heróicas bandeiras das expedições de mineiros, cujos representantes em mais de uma ocasião visitaram o futuro Rio Grande do Sul e cujos descendentes nunca cessaram de penetrar aqui e estabelecerem-se onde quer que podiam fazê-lo a coberto da oposição cruel do Jesuíta das Missões, do Bugre do Sertão, ou do espanhol do Rio da Prata. Foi tudo obra espontânea do povo. Os governos só a cousa de menos de dois séculos deram o primeiro passo positivo para o povoamento do Sul, sobre os areais da Costa.

O pouco caso prolongou-se até o Brasil independente: recorde-se a facilidade com que o primeiro imperador abriu mão da Cisplatina. Foi o maior desastre da nossa história. O que constitui uma nação é, antes de tudo, o homem: e não são os estendais de terreno, embora cobertos de riquezas, incompatível com a vida humana.

A terra vale principalmente como morada do homem, e tanto mais quanto mais se presta a esse fim. Assim, este imenso Brasil, que tem tanto território para explorar e, relativamente, tão pouco clima temperado para criar filhos fortes e sadios – deve defender como a própria vida cada nesga dos seus domínios onde estas condições propícias se ostentem.

A retenção da Cisplatina, em cuja reivindicação seria loucura pensar hoje, quando sobre o seu solo se levanta uma nação completamente independente, que deve ser nossa amiga e cujos sentimentos devemos respeitar, a retenção da Cisplatina, diz o orador, era fácil em 1825, quando, após vários anos de incorporação à nossa soberania, era grande a população Brasileira e a espanhola relativamente insignificante, menos de metade da própria província do Rio Grande, que não passava de oitenta mil habitantes. O jovem Império, entretanto, cedeu à impressão de pequenos desastres iniciais ocasionados por uma série de velhacadas e traições de gaúchos militarizados, e perdemos assim a melhor parte do nosso território.

É preciso agora aplicar na cultura e melhoramento do que nos resta, também conquistado pelo esforço dos nossos maiores, e que, exclama o orador, nunca mais deixará de ser nosso! A boa, a fecunda, a verdadeira política é a que põe os estadistas ao serviço consciente das forças reais da nação, para que esta se faça rica e forte. Nação miserável e fraca nem se faz respeitar, nem mantém a linha da moralidade.

Cessem, pois, os preconceitos que até hoje têm desviado deste Sul as atenções dos que nos têm governado. É para aqui que se deve atrair de preferência a imigração européia, porque é aqui que ela melhor pode permanecer, prosperar e contribuir eficazmente para o povoamento do país com sólidas raízes na terra feraz da nossa Pátria. (Aplausos)

Escolheu para a sua conferência uma tese política – A Situação. Conhece bem os estatutos da Biblioteca no ponto em que coíbem discussões políticas, religiosas e outras irritantes. Presume também haver aprendido, em longa experiência diplomática, o suficiente das regras do bem-viver, para não vir provocar escândalos, ou desrespeitar convicção alheia alguma, em troca de tanta bondade com que é acolhido.

A minha tese é política, sim – exclama o orador – mas dessa política impessoal, superior, serena, científica, diria, se não temesse ser tomado por pretensioso, política cuja discussão apenas pode instruir e edificar, nunca irritar ou dissolver. É de uma dissertação sociológica que se trata, aplicada a grandes fatos concretos da nossa história, ou da nossa atualidade.

Na expressão – Situação – o orador quer compreender o conjunto de circunstâncias naturais, sejam físicas ou históricas, que constituem o meio em que se desenvolveu esta nação e que formam ainda o elemento em que somos chamados a cumprir o nosso dever de sustentar a vida nacional presente e preparar a futura.

Estudos e reflexões desta ordem parecem, ao orador, utilíssimos e não há dúvida que têm sido extremamente descurados no Brasil. A esse abandono deve atribuir-se, em grande parte, uma das piores sombras do caráter de nós todos os Brasileiros – a tendência ao pessimismo, inclinação a ver e sentir apenas o lado mau de todas as cousas e desconhecer o bom, que elas raramente deixam de ter. Entretanto, sem negar que algo mau deve existir, devemos convencer-nos de que o melhor modo, não só de suportar o mau com resignação e coragem, mas ainda mesmo de o atenuar ou extinguir – é conhecê-lo intimamente, é descobrir as causas dos efeitos que lamentamos.

É firme convicção do orador que os Brasileiros somos injustos para com a nossa sorte e para com as nossas próprias qualidades quando proclamamos a nossa incapacidade para nos tornarmos uma grande nação. A lição do passado diz cousa bem diferente. Estivemos bem longe de surgir sob os melhores auspícios neste continente que devia ser o assento da nossa grande Pátria: tivemos desde o primeiro momento surpresas e contrariedades pela frente, mas a prova de que tínhamos nervo para resistir e vencer, aí a temos no próprio fato na nossa existência atual.

Viemos ao mundo na hora em que a humanidade ainda mantinha o critério de que a riqueza provinha mais das aventuras, das descobertas, das explorações fáceis e até da rapina em grande escala – que do trabalho constante e inteligente. Mero acaso distribui às cegas o bem e o mal. Nós tivemos igual partilha de ambos. Neste fato inicial já se denunciam muitas das causas das nossas dificuldades futuras, bem como a explicação dos poucos progressos que temos feito em comparação com outras colônias mais jovens e especialmente as que os Ingleses fundaram na América do Norte e que constituem hoje a grande nação que o mundo proclama o maior fenômeno sociológico da histórica.

Os nossos maiores vieram para cá ao acaso: os Ingleses foram para o norte de ciência certa, mais de cem anos mais tarde, mas tiveram um avanço também de mais de cem anos de progresso, favorecidos por circunstâncias tão favoráveis quanto as nossas nos eram hostis.

A natureza virgem era muito mais difícil de vencer aqui, que lá.

Ao norte era preciso aportar na terra em praias rasas de perigoso acesso. No centro e sul, apesar de alguns magníficos portos, era preciso, para penetrar no interior, transpor a formidável cinta de montanhas que separa as costas do sertão.

No extremo sul, os estendais de areia que permaneceram por dois séculos desengastados da coroa portuguesa – esta jóia, a mais preciosa que devia ser o Rio Grande do Sul.

Vencendo tudo isto, os heróicos portugueses, que eram então uma nação de menos de milhão e meio de habitantes (mais ou menos o que é hoje o Rio Grande), tiveram o arrojo de se apoderar desde logo de mais larga terra do que a própria que conservamos hoje.

Os ingleses, na América do Norte, ao contrário, constituíram pequeno núcleo colonial à margem do Atlântico e foram depois aos poucos conquistando ao índio, ao holandês, ao francês, ao espanhol, a magnífica parte do planeta que é o assento atual da sua poderosa nação.

Eles representavam a nação mais forte de então, e contentaram-se com pouco, para começar. Nós vínhamos da mais débil potência colonizadora e quisemos logo abarcar o mundo com as pernas. Quisemos e o conseguimos, pelejando contra os mais fortes – franceses, ingleses, holandeses e espanhóis, de tal forma que plantamos o maior império colonial do mundo, sem exceção, por algum tempo, do que dominou a outra potência ibérica. Erros gravíssimos foram, porém, cometidos.

O Norte regurgita de riquezas espontâneas e possui um solo cuja fertilidade é multiplicada pelas condições do calor e umidade. Mas o homem ou o viveiro e reserva de homens para explorar e valorizar essas riquezas deve estar no Sul e ir do Sul. O Brasil terá assim o privilégio que nenhuma outra nação pospõe – de encontrar na própria continuidade do seu território, sem necessidade de conquistas ou violências de qualquer ordem, os elementos de exploração tropical que outras nações vão buscar em longínquas aventuras, criando incômodos para si e turvando a paz alheia.

O que começa mal, dificilmente se endireita, e tanto maior é a dificuldade quanto mais considerável é a obra. Os nossos primeiros passos foram errados: sentimos-lhes ainda as conseqüências: mas o mal não é irremediável, não impossibilitou, dificultou apenas, a realização dos nossos destinos de povo livre, independente e rico.

Foi assim, arcando contra os óbices naturais e expiando erros do passado, que se arrastou a nossa vida colonial e a de nação independente, depois de 7 de Setembro de 1822, quando o príncipe Português resolveu romper a fé jurada ao seu pai e, seguindo aliás o conselho desse mesmo pai, cingiu a coroa que corria perigo de ser tomada por algum aventureiro.

O orador não conta novidade alguma ao auditório, dizendo-lhe que, em sua opinião, o Brasil só mostrava condições negativas para a Monarquia constitucional representativa que então se pretendeu formar e em cujo ensaio se gastou inutilmente, esterilmente, quase três quartos de século, ora entre angústias e dores, ora em calmaria podre, sempre com a certeza radicada, expressa ou tácita, na consciência ou nos lábios de todos os cidadãos inteligentes – de que aquilo era o provisório, de que aquilo havia de cair e ser substituído pelo único regime compatível com o país – a República Federativa. (Apoiados e aplausos)

Sim, repete o orador, a Monarquia no Brasil não tinha condições de vida. Representa ela, por isso uma vergonha? Representa mesmo um erro grave?

Erro foi, sem dúvida alguma, na opinião do orador. Era melhor ter entrado desde logo no definitivo, evitando ao mesmo tempo os vícios que o regime novo teria necessariamente de herdar do velho. É fato trivial dos nossos dias que a maior acusação que fazem à nossa República os desanimados ou os adversários – é que ela persevera nos males da Monarquia. Boa parte desses fundamentos de acusações se teria evitado, se o país houvesse, desde a independência, entrado no regime definitivo, que era o seu destino.

Mas a Monarquia, boa ou má, dizem alguns pensadores, entre eles muitos Republicanos, assegurou a integridade nacional: a República não teria tido força coesiva bastante para manter unido o enorme território da antiga colônia portuguesa. Sem negar a seriedade dessa assertiva, o orador observará, entretanto, que não é tão evidente como parece essa virtude da forma monárquica de assegurar a integridade nacional, quando a história nos mostra que precisamente as grandes nações expansivas, desde a Grécia e Roma até a França e os Estados Unidos – foram ou são Repúblicas. Os impérios, as Monarquias têm feito conquistas militares, a ferro e fogo: a democracia tem revelado maior capacidade para a verdadeira expansão. O orador não aceita a Inglaterra como exceção a essa regra: enquanto a Inglaterra foi propriamente Monarquia, isto é, até Jorge III, mostrou qualidades negativas para a colonização, tanto assim que perdeu a jóia das suas possessões, o núcleo das colônias da América, que hoje formam a radiosa constelação de estados livres que brotariam para atestar ao mundo os milagres de que é capaz o princípio federativo democrático. Mas, nem precisamos de exemplo alheio, quando o temos em casa: não foi a Monarquia Brasileira que perdeu a Cisplatina? Não foi a República, representada pelo mais meritório dos Brasileiros vivos – Rio Branco -, não foi a República, exclama o orador, que remiu, senão em qualidade, ao menos em quantidade de território, esse desastre do passado, já plantando a bandeira nacional no extremo dos limites que discutíamos com vários visinhos poderosos, já incorporando ao patrimônio da União o feraz território do Acre, só ele tão extenso como toda a Banda Oriental do Uruguai? (Aplausos)

Mas o orador recorda que deixou sem resposta esta interrogação: foi a Monarquia uma vergonha nacional? Erro foi provavelmente, vergonha não. O Brasil não tem necessidade de repudiar cousa alguma da sua história, muito menos o regime que a sabedoria do maior número julgou em dado momento que seria o mais próprio para bem servir a nação. (Apoiados)

O orador, antigo e irreconciliável adversário da ordem de cousas que desapareceu em 15 de Novembro, o orador que nunca foi outra cousa senão Republicano, que nasceu para a luta, armado do aríete da sua palavra e da sua pena, batendo constantemente nas muralhas do reduto imperial, o orador não seria suspeito mesmo se viesse hoje dizer que após longa meditação e o amadurecimento dos anos se inclinava a crer que o fato de não termos começado logo com um sistema democrático federativo – dado o nosso caso especial de escassa educação – podia ter sido antes benéfico que funesto, podia mesmo haver sido a garantia da nossa integridade. Quem sabe? Era possível que – saltar do regime de El Rei Novo Senhor para o da plena democracia desse resultado análogo ao da imediata libertação dos escravos, muitos dos quais não aproveitaram nem desfrutaram um só dos benefícios da liberdade, senão o de apodrecer em paz. E o caso é muito mais sério, tratando dos povos, porque estes só sabem dissolver-se e extinguir-se em meio das contorções da epilepsia revolucionária.

Seja como for, porém, não havia motivo para desesperar, por não se ter feito a República desde logo: era apenas questão de tempo: a implantação da Monarquia tinha de ser necessariamente transitória. A República era inevitável neste solo americano, onde não havia dinastias, nem as condições essenciais para que elas deitassem raiz e se assegurassem. Aqui não havia, nem há aristocracia de um lado e povo do outro. A igualdade de condições originais fez irremissivelmente iguais os homens. As distinções vêm apenas das obras de cada um: ninguém admite que se possam transmitir com o sangue. O nosso império tentou em vão criar uma aristocracia, fazendo barões e marqueses. Mas os próprios agraciados eram os primeiros a não fazer grande caso do papel que lhes era distribuído: o seu bom senso e bom coração não lhes permitiam segregar-se do convívio dos seus semelhantes – iam estendendo mão amiga igualmente aos seus pares e ao trabalhador grosseiro. Quando o agraciado tinha revelado méritos brilhantes que lhe houvessem dado lustre natural ao próprio nome, nem o título pegava nunca. Para não falar senão no mais admirado e mais querido – que jamais conseguiu fazer o povo dizer Marquês do Herval em vez de [palavra ilegível] (Aplausos). E que povo era esse senão um povo natural e fundamentalmente preparado para a democracia?

Não deve ser, pois, unicamente o sentimento partidário que deve aconselhar a aceitação da República; o patriotismo, antes de tudo, aconselha a sustentá-la, a contribuir para o seu aperfeiçoamento, a amá-la, enfim, como se deve amar tudo quanto é uma expressão legítima dos destinos da nacionalidade. Boa ou má, a República é inevitável, é definitiva. Seria maldade ou quixotismo lutar contra o que não se pode evitar. É preciso aceitar o fato definitivo, embora com ele venha a longa cauda de erros e defeitos que acompanha todas as cousas humanas e principalmente as que não chegaram ainda ao período do amadurecimento.

E não será a nossa República digna de ser amada por nós? O orador, cujo destino foi não tomar parte alguma direta e substancial na constituição da República, que, entretanto, havia pregado e propagado com ardor no tempo em que não havia Republicanos, o orador poderia lavar as mãos, como Pilatos, a respeito de quase tudo quanto de censurável ou simplesmente objetável tem acontecido, principalmente no período normal, que começou algum tempo depois de organizada a Federação. Não o fará, porém. Como sincero Republicano, aceita a sua partilha de responsabilidade pelo mal e reclama o seu quinhão de glória pelo bem.

O orador está convencido de que na balança da história, quando forem julgados estes primeiros passos de ensaio da República Brasileira, a concha do bem há de pesar muito mais que a do mal. Não que nós tenhamos tido sempre os homens mais capazes à frente dos negócios públicos: não que os apetites inconfessáveis não tenham muitas vezes prevalecido sobre o conselho do patriotismo: não que a par de erros de ignorância se não hajam cometido crimes conscientes: não ainda que se possa afirmar que os verdadeiros princípios proclamados pela Constituição tenham estado em prática fiel por período algum apreciavelmente longo para servir de prova: tem sido em plena luta contra a maré da reação: em quase perene hostilidade contra circunstâncias materiais e incidentes perturbadores de várias ordens – políticos, econômicos e financeiros – presa da timidez e da vacilação dos homens cautos, ou da temeridade funesta dos insensatos – que a República Brasileira tem dado os primeiros passos de sua infância. Mas, apesar de tudo, são passos para frente!

Não é isso o que todos vêem, entretanto: mas é a realidade, que o orador demonstrará com prazer em muito poucas palavras.

Entre grandes virtudes, a nossa raça ostenta enormes defeitos. O de ser pessimista é um dos mais terríveis. Verdade é que o pessimista é quase o único a sofrer as conseqüências de seu temperamento: mas nem por isso deve tratar menos de se corrigir, porque é quando nós mesmos somos felizes que estamos mais aptos para fazer felizes aos demais. O povo Brasileiro, e poderia estender a expressão a toda a raça latina – neste ponto é apenas uma vítima da triste enfermidade moral de que o poeta acusa a humanidade inteira, que tem mais aptidão para sentir que as rosas têm espinhos de que para reconhecer que os espinhos dão rosas.

Assim, nós da República só vemos o que é o mau. E, como o tempo tem a propriedade de apagar da memória mais depressa a reminiscência do mal que a do bem, começamos inversamente, a esquecer os vícios da Monarquia, e a recordar-lhe as virtudes. Dá-se com o povo o que se dá com o indivíduo: na convivência íntima com os seres mais queridos, com o amigo, com o irmão, o filho e até com o ser tutelar que deve considerar-se uma parte de nós mesmos – a esposa – quantas vezes pequenos e grandes atritos, contrariedades e desgostos não amarguram o nosso coração: mas se o raio da desgraça nos fulmina, arrebatando para sempre um desses entes queridos, – desde logo começa a desvanecer a lembrança do que era mau, à medida que o tempo avança, mais enérgico é o trabalho da memória recordando, e da imaginação exaltando as boas e adoráveis qualidades do eterno ausente. Essa consoladora tendência do coração humano vai além do objeto dos nossos afetos: o próprio inimigo é menos mau depois de morto, se é que muitas vezes o tempo não o reabilita de todo, apagando o ódio que lhe era votado em vida e impondo o reconhecimento das reais virtudes de que ele por ventura foi portador.

Assim é que, por um lado o nosso pessimismo ingênito para com todas as cousas do presente, por outro a tendência a não recordar do passado senão o que ele teve de bom, têm feito com que amigos e adversários do antigo regime, em grande número, estejam convencidos de que nós, depois que nos fizemos República, não temos feito senão andar para traz, ao passo que, no império tudo ia pelo melhor.

Sem falar já dos que até pretendem que na República o clima se tenha modificado para pior e que a Constituição de 24 de fevereiro seja responsável pelas secas e enxurradas dos últimos 15 anos! (Risadas). O orador recorda só apenas o exemplo mais diariamente observado. Não é verdade que há muita gente convencida de que o câmbio no império sempre estava ao par? Basta falar-se no preço de qualquer cousa adquirida nesse tempo, para logo saltar alguém com esta piada: “Mas isso foi nos bons tempos, do câmbio ao par!” Outros há – é quase toda a gente – que estão piamente persuadidos de que no tempo do império ninguém queria receber ouro e que todos, para evitarem o vil metal, estavam dispostos a pagar prêmio sobre o valor nominal do papel (Risos). Não há fumo sem fogo. Houve realmente uma curta época, a dos últimos dias da Monarquia, a da visita da saúde do império, em que tudo isso se deu, porque a nação tendo menos de duzentos mil contos de réis em papel emitido, importou de golpe maior soma em ouro, sendo cem mil contos por empréstimo e mais ou menos outro tanto pela operação da estrada de ferro Leopoldina. Havendo em circulação mais ouro que papel, naturalmente este correrá ao par e ainda com a vantagem relativa à maior comodidade do transporte. Mas tal situação, num país como o Brasil, só pode existir artificial e muito transitoriamente. E a prova é que o próprio império só a teve por alguns meses. Malgrado os que afirmam o contrário, a verdade é que o Câmbio nunca esteve ao par no império, com exceção desse certo período da importação de ouro. O Câmbio esteve até a 14 durante a Guerra do Paraguai e andou pelos 17 ainda cerca de três anos antes de 15 de Novembro de 1889.

Mas o orador quer ainda no desenvolvimento da sua tese consagrar algumas observações a esta árida questão do câmbio: por agora tencionava apenas exibir uma prova da possível falsidade das afirmações que se fazem com mais caráter de positividade, quando se trata de comparar os dois regimes. Fatos verdadeiramente positivos o orador não teme que se aleguem em prova de que o novo regime não foi para o Brasil uma condição de progresso.

É uma verdade intuitiva – que a base primeira da existência e, por isso, também do progresso de uma nação é o povoamento do território.

O Brasil, que é dirigido principalmente por descendentes de povos que para cá imigraram do velho mundo, tem ainda como esperança mais segura de um conveniente povoamento novos reforços de imigrantes da mesma origem. O povoamento pelo simples crescimento da atual população não seria lógico, porque importaria uma quebra arbitrária de solidariedade com o passado e daria resultados tão lentos que seria seguro ficarmos em breve na retaguarda da última das nações nossas contemporâneas lançadas no concerto do mundo em circunstâncias análogas às nossas.

É preciso, pois, é essencial recorrermos ainda por muito tempo à imigração, se quisermos extrair desta grandiosa terra os recursos de que ela é capaz, se quisermos ser respeitados na posse dela. (Apoiados)

O orador não quer citar algarismos, porque os simples dados que guarda de memória não lhe permitem falar com exatidão matemática. Mas pode afirmar que toda a imigração dos setenta anos incompletos de império foi muito inferior em número e qualidade à dos quinze anos de República no Brasil.

Sobre este particular como sobre muitos outros o orador não tem entusiasmo pelo modo que tem sido exercida a administração Republicana, defeituosa a muitos respeitos: mas fica inegável o fato nu e cru de que na República as condições se mostraram mais favoráveis ao povoamento do que no anterior regime.

Passando da existência do homem sobre o solo para as considerações relativas ao melhor aproveitamento deste por aquele, o orador observa que um dos melhores sintomas de adiantamento que pode exibir uma nação está na abundância e qualidade dos seus meios de comunicação e transporte. Não tratará o orador senão de um desses meios, e pergunta: quantos quilômetros de estrada de ferro construiu o império nos seus quase três quartos de século de existência?

Oito mil, mais ou menos. Pois bem: de 89 para cá já se construíram quatorze mil, aproximadamente. Temos hoje cerca de 22 mil quilômetros de caminhos de ferro, dos quais 18 mil possuídos ou fiscalizados pela União. O império pagava 7 % de garantia de juros ao capital geralmente estrangeiro, empregado no serviço ferroviário. A República está procedendo sistematicamente a encampação das linhas possuídas por estrangeiros. Para isso, adquire capitais a juro sempre inferior a 7%. A diferença entre os dois sistemas é, além de outras, esta: no sistema seguido pelo império a nação pagava maior juro e não era dona da estrada: no sistema observado pela República a nação paga menos juro e é proprietária da estrada, que, arrendada, ainda contribui sensivelmente para o serviço da dívida.

Se nesse importante capítulo dos caminhos de ferro é palpável a vantagem que nos tem trazido o novo regime, não é menos eloqüente o resultado da comparação do que deixou o império e do que tem feito a República em todas as outras manifestações da riqueza nacional. O orador lamenta não estar preparado para esta conferência, não estar armado dos algarismos que só uma revista das suas notas e arquivos lhe proporcionaria e que se torna impossível na situação instável de viajante em que desde mais de um ano se encontra. Não receia, porém, ser desmentido em cousa alguma essencial do que vai afirmar.

O principal gênero de exportação do Brasil (ainda que, na opinião do orador, não seja a sua principal fonte de riqueza) é, desde muitos anos, o café. No seu ano de maior exportação desse produto agrícola o império se manteve na vizinhança de cinco milhões de sacos de sessenta quilos. A República já chegou a exportar quinze milhões de sacos de café em um só ano, tendo, aliás, produzido muito mais do que esse total e vendo-se obrigada a não exportar toda a produção desanimada pela ruinosa decadência dos preços.

Depois do café, a borracha representa a mais valiosa exportação nacional. A República tem igualmente visto crescer a sua produção anual deste artigo além do triplo da do ano mais feliz do império. E a respeito da borracha nem se poderá dizer que o aumento da produção coincidiu com a queda do preço a ponto de não alterar em alguns anos o valor da exportação, como com o café sucedeu.

Podem dizer que a administração, ou pelo menos a forma de governo, não influi em fatos da ordem dos referidos pelo orador. Até certo ponto é isso verdade: não o é, porém, em absoluto. No caso Brasileiro, por exemplo, a mudança operada nas instituições foi antes de tudo um sacudimento geral do país até então entorpecido: depois, os meios de ação pública e, reflexamente, os de ação privada se tornaram muito mais favoráveis ao progresso. A sorte de cada um dos círculos concêntricos que formam a Federação, o Estado e o Município ficou, bem ou mal, nas mãos do próprio interessado. A União pôde ocupar-se, senão exclusivamente, ao menos preferentemente, dos negócios nacionais, e os Estados e Municípios aplicar-se aos interesses locais, cada um na sua órbita.

Tudo isso foi mal compreendido e mal executado – dirão. O orador não o nega, concede mesmo aos seus possíveis antagonistas que a República federativa que temos haja sido interpretada e aplicada pelo pior do pior.

Mas é justamente o reconhecimento desse fato que faz ressaltar as virtudes do sistema. Tudo, ou a maior parte, se deve à força ingênita do regime; nada, ou bem pouco, ao esforço consciente dos homens.

Para não ir buscar apoio senão em um fato agora mesmo referido neste mesmo discurso, o orador faz notar que a incapacidade administrativa dos novéis Republicanos, que tem produzido alguns outros efeitos do mesmo gênero, chegou a anular o mais belo e eloqüente esforço de energia produtiva que o novo regime fomentara.

O orador refere-se à produção agrícola. A abundância de braços ocasionada pela expansão imigratória favoreceu grande aumento da cultura da terra. Como no momento o café era o artigo que oferecia maiores vantagens, para esse cultivo convergiram quase exclusivamente o capital e o trabalho. Se a administração pública fosse previdente – e é na previdência que consiste o principal da capacidade administrativa -, teria tomado medidas para evitar a superprodução do café que resultaria de semelhante fato, e como conseqüência da superprodução, a queda do preço. Seria isso impossível? Não. Em todo país bem administrado, e especialmente nos Estados Unidos, os agricultores e todos os produtores de qualquer artigo que seja, são constantemente informados por publicações oficiais das perspectivas e probabilidades do mercado nacional e universal, de modo que lhes é possível graduar a produção pela futura demanda. Além disso, no nosso caso, medidas preventivas legais contra o excesso da cultura podiam haver sido tomadas a priori, como o foram mais tarde a posteriori, com menos proveito para a riqueza pública. E ainda depois de produzida francamente a baixa do preço pelo reconhecimento da superprodução, seria possível deter os seus maus efeitos, ou atenuá-los por qualquer meio que corrigisse a disparidade que se manifestou entre a oferta e a procura. Mas nada se fez. A administração confessou-se tacitamente incapaz, e o trabalho nacional, que a situação nova do país permitira multiplicar-se por três, despender três vezes mais energia e fundar sobre o futuro esperanças três vezes maiores, teve de si resignar a uma terça parte da recompensa a que tinha direito.

É verdade que, neste ponto, os produtores poderiam também queixar-se de si próprios, por não se organizarem em associações, em sindicatos da especialidade, como se faz alhures a fim de acautelar os interesses comuns. Mas nem por isso a missão do governo, ou melhor, da administração, seria dispensável. Por mais que o ideal seja a completa abolição da tutela oficial, esse ideal ainda não foi e não será tão cedo atingido, muito menos entre nós. Para o orador é mais que curiosa, é irrisória a desculpa dos governos que se escusam de agir para remediar certos males públicos, alegando pretensos princípios de liberalismo e vão intervir precisamente no que não devem – nas administrações locais, nas sentenças dos juízes, nas eleições e até no reconhecimento de deputados e senadores.

Outro grande fato da vida nacional em que se manifesta clara a oposição entre o excelente regime que temos e o péssimo uso que dele se tem ás vezes feito é esse de que o orador já se ocupou ligeiramente – o câmbio. Porém aí a aparência é maior que a realidade.

Muita gente, por ver o câmbio constantemente baixo desde que se implantou o regime Republicano, conclui que no império havia mais dinheiro que hoje, ou ainda, confundindo a idéia de dinheiro com a de riqueza, pretende que estamos hoje mais pobres que naquele tempo. Nada disso é verdade. A verdade é que o país está mais populoso, dispõe de melhores meios de comunicação, produz mais e consome mais que antes de 1880.

Está, pois, seguramente mais rico.

O próprio câmbio, se for bem interpretado, tem mantido na República uma média muito superior à que conservou no antigo regime. Nós, Brasileiros, confundimos a idéia de câmbio com a da alta ou baixa do papel fiduciário. É um erro. Câmbio propriamente, significa troca, mas não troca de um dado tipo de moeda por outro, como da mesma moeda de um lugar para outro. Não é, pois, necessariamente a troca de ouro por papel e vice-versa, como no nosso caso. Tanto assim é que existe câmbio do mesmo modo entre países cuja moeda corrente é ouro unicamente, ou papel que vale ouro. O câmbio aí consiste, pois, no transporte da moeda de um país para outro, e é favorável ou contrário a qualquer dos interesses conforme as exigências da oferta e da procura. Se for preciso mandar mais libras de Paris para Londres do que francos de Londres para Paris, o câmbio estará favorável à Inglaterra, a libra será cotada por um pouco mais do que o seu valor intrínseco.

A França, a Suíça e a Bélgica usam o franco como padrão e também usam o ouro, isto é, são países de circulação metálica: o que não tolhe que se cotize o câmbio entre as suas respectivas praças. Para esclarecer ainda mais a idéia, o orador afirma que a própria passagem do nosso papel moeda de umas praças do Brasil para outras, por intermédio de casas bancárias, é fundamentalmente uma operação de câmbio. A comissão que os bancos cobram está ou deve estar, na proporção da oferta e da procura de cambiais entre as praças em questão, tanto assim que há casas bastante escrupulosas para não cobrarem cousa alguma pela passagem de dinheiro particular para pontos onde têm sobra de fundos.

Assim como o câmbio se dá dentro dos limites do mesmo país e com a mesma moeda, também de país a país pode haver a distinção entre a compra de cambiais, que é o câmbio propriamente dito, e a compra de ouro, que é o que produz o ágio do metal. Esse fato existe bem perto de nós: na grande praça de Buenos Aires, considera-se separadamente o câmbio e o ágio do ouro.

Julgando ter bem discriminado essas duas idéias, o orador sustenta que o câmbio propriamente dito não tem sido inferior, na República, ao que foi no império, antes deve ser hoje mais favorável, porque tendo permanecido idênticas as outras condições, a diferença entre a nossa importação e a exportação nunca foi tão grande em favor desta como agora. No fim da administração do Sr. Murtinho já o saldo da balança do comércio exterior nos era favorável em mais de nove milhões de libras.

Agora, quanto ao ágio do ouro, ainda o orador sustenta que, fundamentalmente, ele é menor na República do que o foi no império.

 Toda a ilusão dos que pensam o contrário está na falsa idéia que fazem do que seja papel moeda, ou moeda fiduciária. Para clareza, alguns economistas chamam moeda papel (dando proeminência à palavra moeda) o papel garantido por ouro em depósito, ou conversível em ouro à vontade do portador, e reservam o nome de papel moeda ao papel não conversível da mesma forma e cuja garantia é de ordinário a mera promessa do governo de dar algum dia, sem tempo determinado, ao portador de tal papel, uma soma em ouro igual à que está escrita sobre a face de cada bilhete. A palavra fiduciária (de fidus, fé) indica bem que a garantia única de semelhante moeda é a confiança que a opinião deposita no governo, digamos, o crédito do governo. Tal crédito representa, pois, o poder pagador que a opinião atribui ao governo. Assim sendo, por maior que seja a quantidade de papel que o governo emita, o valor real em circulação será sempre o mesmo. Por outro, o valor nominal do total do papel emitido é, sob este ponto de vista, indiferente: o que é essencial é saber quanto ouro vale esse monte, grande ou pequeno, de papel pintado.

 A Monarquia, ao cair, tinha em circulação um monte pequeno de papel, 183.000 contos, algarismo redondo: a República, no açodamento e confusão dos seus primeiros passos, cedendo à vertigem que não era só dos seus inexperientes estadistas, mas de toda a gente, multiplicou logo esse acervo, chegou a tê-lo cerca de quatro vezes maior e ainda hoje, depois de vários processos inquisitoriais, de que nem o do fogo tem sido excluído (risos), ainda ostenta massa nominal superior a 600.000 contos, ou, grosso modo, bem mais que a herança monárquica.

Não era lógico, pergunta o orador, que se o crédito da República fosse inferior ao do império, o câmbio tivesse caído mais de três vezes diante da emissão três vezes maior?

Não caiu, entretanto: pelo contrário, subiu. Admitindo mesmo que na Monarquia o câmbio sempre tivesse estado ao par (o que não é verdade, como já mostrou o orador) os seus 183 mil contos de papel só poderiam comprar outros 183 mil contos em ouro. Ora, concedendo que a média do câmbio atual se mantenha em 12 dinheiros por mil réis, o valor da libra esterlina será 20 mil réis e os seiscentos e muitos mil contos da presente circulação valem acima de 30 milhões de libras ou mais de 300 mil contos em ouro. Essa é a diferença entre o câmbio e o crédito no império e na República.

Nem podia ser de outro modo, exclama o orador, sem quebra da lógica das causas: como poderia ter a riqueza pública acusado grande expansão em todas as suas manifestações e só o poder comprador do país e de cada um dos seus habitantes decrescido? Não: uma cousa é função da outra e, na mecânica social, as leis são tão rigorosas como na mecânica material.

Os Republicanos não devem repudiar o extenso período da história nacional ocupado pelo regime provisório da Monarquia; mas não receiam o seu confronto nem com este escasso e pouco propício período dos primeiros ensaios da democracia. (Apoiados)

Com a serenidade com que o orador procura ver e julgar as cousas, nenhuma dúvida põe em declarar que a Monarquia teve geralmente servidores, não mais dedicados e bem intencionados, mas seguramente mais capazes do que os que os que têm tomado a tarefa da administração na nascente República. Desde o seu primeiro estadista – José Bonifácio – até o último – Afonso Celso – dois homens que fariam honra a qualquer nação culta, o império dispôs de muitos servidores de grande mérito, sobretudo o da experiência. Se não conseguiu encher com brilhantismo a página que a história lhe concedeu – foi pela imprestabilidade das instituições exclusivamente, pela sua incompatibilidade com a índole e condições do país. (Apoiados e aplausos)

Do mesmo modo, se a República, servida por estadistas improvisados, e nem sempre com felicidade, pode comparar vantajosamente a sua fé de ofício com a do império, deve-o, antes de tudo, à excelência das instituições, à sua homogeneidade com as condições da nação, circunstâncias essas que lhe permitiram, ainda em meio das dificuldades e perturbações dos primeiros movimentos, atacar e solver muitos dos mais instantes problemas nacionais e caminhar com pé seguro ao encontro dos demais.

Nem é mais feliz que as outras a acusação que fazem à República de haver sido causa de angústias domésticas, da desordem, da própria guerra civil. Esse é desgraçadamente o tributo inicial de muitas grandes obras e especialmente das mudanças radicais. Não o pagou também a Monarquia, que viveu em contínua guerra civil ou internacional desde que nasceu até 1870? Pela própria nossa triste discórdia riograndense, que durou menos de três anos, teve o império uma guerra separatista de dez anos. A perturbação que sofreu a República em outros Estados ao norte do Rio Grande fica muito aquém das continuadas rebeliões e cruéis repressões das mesmas que rodearam os anais do império até 1848.

Depois do primeiro quarto de século, agitado e mesmo sanguinolento, o império arrastou-se em paz interna até expirar. Pouco fez, porém, durante esse relativamente largo período de tranqüilidade. Na ordem social, manteve a escravidão até se ver obrigado a capitular no fim da vida com a opinião triunfante. Na ordem política e administrativa foi a centralização ferrenha, que acabou por lhe causar a ruína, porque o espírito descentralizador e federativo foi a principal causa que fortaleceu a opinião Republicana. Na ordem econômica, finalmente, o império foi o déficit sistemático dos orçamentos, ao ponto de Ferreira Vianna dizer na Câmara, com gerais aplausos: “Ele é o defit e o déficit é ele”.

A República, ainda na quadra de pouca estabilidade da sua juventude, tem trabalhado com êxito feliz para eliminar muitos dos males que encontrou: remediou em grande parte pela imigração a falta ocasionada pelo desaparecimento do braço escravo: entregou o governo dos estados e dos municípios aos elemento locais, que em muitos casos não fizeram muito brilhante estréia de tão preciosa liberdade, que mas que observadas as cousas, têm demonstrado a verdade do rifão que diz que “mais sabe o todo no seu, que o avisado no alheio”; têm finalmente conseguido decretar orçamentos equilibrados e cada dia se avizinha mais do ideal de chegar ao fim de cada exercício com as contas equilibradas também.

Têm crescido as despesas – dizem – e também a dívida tem aumentado. O crescimento dos gastos só é prejudicial quando nada fica para o patrimônio depois de feita a despesa. Mas esse não tem sido o caso ultimamente no Brasil: gasta-se, mas alguma cousa se faz. No império era o contrário. Não se deixava de gastar, mas bem pouco era o que aparecia de bom. Até a higiene da capital da nação era descurada, ao ponto daquela bela metrópole infundir horror ao estrangeiro. O que a República está despendendo para restaurar os foros de civilizada e habitável que tinha perdido a sua capital é a despesa mais inteligente e patriótica.

O mesmo pode dizer-se da dívida. No furor de fazer antipática a República, costumam calcular na dívida nacional até os compromissos dos Estados e Municípios e ainda o valor nominal do papel moeda, que é uma dívida, sim, mas que não tem prazo nem vence juros e que nunca se computou na coluna devedora do império. Seja como for, porém, a verdade é que o Brasil é um dos países relativamente menos endividados do mundo. O uso que temos feito do crédito não será provavelmente o mais digno de aplauso, mas não excedeu ainda, nem atingiu o limite das forças nacionais.

Ainda mesmo na ordem internacional, na qual parecia que a presença de um príncipe tão respeitável, como foi o nosso último imperador, colocaria o país em melhor posição, as vantagens trazidas pela República são palpavelmente evidentes. É verdade que algum comentador superficial de quando em quando lamenta a suposta diminuição do nosso prestígio no concerto das nações. Esquecem que o antigo prestígio não impediu que mais de uma vez fosse a nossa soberania direta e impunemente insultada e que até na justa guerra de defesa que fomos obrigados a aceitar com o Paraguai não tivéssemos conseguido mais que as antipatias universais, até as do Chile, o nosso tradicional amigo.

O império deixou uma grave questão de limites com cada uma das nações vizinhas de certa importância. Solveu apenas as que tinha com o Uruguai e com o Paraguai: mas por quê preço? Gastando em países estrangeiros cem milhões de libras e deixando cem mil homens mortos pelo ferro ou pela peste. (Apoiados)

A República já solveu a questão com a República Argentina, que o próprio genro do imperador, esposo da futura imperatriz, dissera na única sessão do Conselho de Estado a que assistira – que só se devia resolver pela espada – segundo declarou em público, sem ser desmentido, o honrado Silva Jardim, que ouvira do seu próprio sogro, também conselheiro de Estado. Essa questão a República resolveu-a reivindicando até á última polegada do território que reclamávamos e, melhor que tudo, conservando e aumentando a cordialidade em que devemos viver com os nossos dignos vizinhos que nobremente contestavam o nosso direito. Em vez do general estrangeiro que ambicionava ganhar batalhas que o arrancassem da irremediável impopularidade inconveniente aos seus interesses dinásticos, tivemos em nossa defesa um homem manso e pacífico, armado de apenas muito patriotismo e muita competência, esse mesmo que o orador já chamou de o primeiro dos Brasileiros vivos na ordem dos serviços prestados à nação – Rio Branco. (Apoiados e aplausos)

Foi ainda esse mesmo general da paz e da razão que reivindicou o nosso direito contra a poderosa França relativamente ao território do Amapá. É fato histórico que o imperador, tendo como seu plenipotenciário em Paris ninguém menos que o Visconde do Uruguay, propusera mais de uma acomodação a Napoleão III, cedendo até mais de metade do território disputado. O francês recusou, e dizem mesmo que deu esta resposta que bem mostrava o alcance das ambições do seu amo: “Sr. Ministro, só o Amazonas será digno limite de dois impérios como os nossos”.

Ao grande Rio Branco tocou ainda resolver a mais grave das nossas questões territoriais, a do Acre, em que não se tratava somente de limites, mas principalmente de vedar neste continente a implantação das companhias estrangeiras semi-soberanas, as chamadas Charlered Companies, a maior e mais positiva ameaça que jamais se ergueu contra o sossego e independência de toda a América do Sul.

A questão terminou, como já observou o orador, por uma aquisição territorial, a única da nossa história de nação independente e tão vasta que exatamente compensa a amputação que o primeiro imperador deixou fazer-se da nossa jóia do Sul.

 Já se resolveram também na República as questões de limites com a Inglaterra e o Equador. A do Peru depende de pouca cousa. Nada mais resta, enfim, de substancial para que o Brasil, cercado de vizinhos amigos, com os quais não mantém pendência alguma, possa dedicar-se exclusivamente às ocupações da paz, ao desenvolvimento da sua riqueza e ao aperfeiçoamento das grandes instituições que lhe permitiram tantas vantagens.

 Tal é a situação, exclama o orador, que escolheu essa mesma palavra para título da sua conferência. Dentro desta situação há ainda muito a fazer e sobre o que há a fazer poder-se-ia dissertar imenso tempo. O orador não quer esquivar-se, não há de esquivar-se nem a toda obra, nem a toda discussão que deve preparar. Sente ainda o mesmo ardor de quando andou apostolando esta República que se trata agora de conservar e melhorar. Se for preciso, irá ainda, como outrora, de lugar em lugar, por todo este heróico Rio Grande, espalhando o verbo do que lhe parecem a verdade e o bem. Como esta é a primeira vez que fala em público depois do seu exílio voluntário, o orador sentiu-se no dever de rebater a nota de pessimismo que corre sem impugnação, fazendo uma sumária defesa da República, que cada vez julga com mais convicção ser o regime capaz de fazer o Brasil grande e feliz (aplausos). Quer também o orador que esta sua primeira conferência, que a muitos pode parecer vaga ou incompleta, mas que não poderia ser alargada sem abusar da paciência do auditório (não apoiados) e das suas próprias forças, seja considerada uma espécie de introdução geral a outras que provavelmente terá de realizar, em qualquer outra parte, talvez em Pelotas mesmo, tomando então teses assuntos mais atuais.

Como então a crítica de fatos secundários da situação pode levar alguém a confundir o orador com os pessimistas vulgares que, no já citado conceito do poeta francês, se queixam de que as rosas tenham espinhos, mas não gozam, vendo que os espinhos dão rosas, esses a quem, diria Schiller, as árvores não deixam ver a floresta, – quis o orador deixar bem claro nesta conferência inicial o seu espírito de otimismo, a sua satisfação a respeito das grandes linhas da vida nacional.

De uma política dessa ordem o orador nunca se desinteressou, nunca se desinteressará. Traz da sua peregrinação de 13 ou 14 anos longe desta Pátria amada o mesmo coração e o mesmo espírito que daqui levou. Não traz ódios em troca de alguma injustiça de que foi alvo, mas sim perdão e esquecimento. Quer continuar uma obra que nunca abandonou, que começou quase sozinho, que poderá sempre levar por diante sem pedir o placet de ninguém. Essa obra é o bem desta Pátria, sem a qual a própria vida não lhe tem sentido. (Aplausos)

O orador pode e quer cumprir essa missão sem pedir nem desejar investidura alguma oficial.

Não é que não seja ambicioso. Somente a sua ambição não é de cargos, que em si próprios são contém, nem podem emprestar a ninguém mérito algum. A sua ambição é de glória, e essa não pode ser dada nem negada: conquista-a quem a merece. (O orador deixa a tribuna em meio de grandes e repetidos aplausos e é muito felicitado)

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