Revista Estudos Políticos

A Dialética do Esclarecimento, de Thodor Adorno e Max Horkheimer. Resenha de Juliano Borges.

Posted in N° 2 (2011/1) by Revista Estudos Políticos on junho 1st, 2011

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ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. (1985). A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.

Juliano Borges é jornalista, professor visitante do Departamento de Teoria da Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Em lugar do progresso, a barbárie. É essa a intimidante constatação que nos apresentam Adorno e Horkheimer em sua crítica à sociedade ocidental contemporânea e seu culto à técnica e à racionalidade. O esclarecimento, vertebração do projeto iluminista que pretendeu redimir o mundo pelo conhecimento, através da razão, forjou, ao contrário, uma sociedade repressora e totalitária. O processo de racionalização que sustenta a filosofia e a ciência, em lugar de libertar os homens, proporcionou-lhes o controle, a dominação pelo cálculo.

A Segunda Guerra caminhava para o fim quando a Dialética do Esclarecimento foi escrita, no exílio dos autores nos Estados Unidos. O mundo assistia chocado à destruição desenfreada proporcionada pela máquina de guerra sem ainda conhecer outros horrores como os campos de concentração. Diante do estágio mais baixo de degradação da humana, Adorno e Horkheimer não hesitaram em acusar a própria razão como causa da irracionalidade e do mal absoluto. Eis o paradoxo apontado pelos autores: é o culto à razão o responsável por lançar a sociedade para a barbárie. Contudo, o traço surpreendente de sua denúncia não estava em indicar a barbárie como prerrogativa exclusiva de regimes totalitários. O conhecimento teórico teria sustentado um processo de dominação e desumanização subjacente também às bases da democracia ocidental. Portanto, o fascismo, naquele momento o maior exemplo da radicalidade do mal, não se configuraria como reação histórica pré-civilizatória ao esclarecimento, mas um produto tão consistente quanto os encontrados em qualquer outra sociedade de consumo. O fenômeno não é um traço próprio de regimes autoritários, portanto, mas uma contradição característica do tipo de racionalização dos modos de produção do capitalismo, qualquer que seja sua forma de expressão política. A barbárie está, portanto, em toda a parte, esperando apenas uma oportunidade para mostrar sua face.

Para Adorno e Horkheimer, o programa iluminista radicalizou o papel tradicional do saber imaginando-o objetivo, neutro, e dirigido de maneira inexorável para a emancipação da humanidade. Assim, o controle da natureza é levado ao seu extremo por meio do desmonte do mito e da produção de verdades que retirassem dos homens o pesado fardo do medo e da incerteza do mundo, garantindo ordem e sentido à existência humana. “A matéria deve ser dominada sem o recurso ilusório a forças soberanas ou imanentes, sem a ilusão de qualidades ocultas” (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p.9). As sociedades deveriam ser conduzidas de maneira objetiva, ordenada, tornando o mundo um lugar previsível. Eis a fórmula iluminista para salvar o homem da barbárie pelo esclarecimento. Controlar o mundo pela técnica, fazendo, cada vez mais, poder e conhecimento serem sinônimos. É, portanto, pelo desencantamento do mundo que se funda o projeto de modernidade.

No entanto, a dominação da natureza se converte com certa facilidade em dominação sobre os homens. Objetivada, a natureza se transforma em abstração e o sujeito onipotente, dono dos meios que a subjugam, enfrenta as incertezas do mundo com a pretensão de dominá-lo. A dominação da natureza por intermédio dos sujeitos portadores do saber, contudo, possibilita que o homem subordine o próprio homem, degradando-o como mero elemento daquela natureza dominada. Reconhecendo uma continuidade no uso da técnica, associada muitas vezes à violência, Adorno e Horkheimer percebem uma confusão entre pensamento e cientificidade. A modernidade acaba, pois, assimilando a última como única forma legítima de pensar e de ser, formando, aí, o seu tipo próprio de totalitarismo. Assim sendo, o sistema político-social a que estariam submetidas as sociedades seria indiferente. Capitalistas ou socialistas, fascistas ou liberais, quaisquer sociedades onde o princípio de dominação da natureza se manifestasse estariam sujeitas também à dominação sobre os homens. Conforme nos apontam, “o esclarecimento sempre simpatizou, mesmo durante o período do liberalismo, com a coerção social e a unidade da coletividade manipulada consiste na negação de cada indivíduo.” (idem, 13).

O esclarecimento seria, então, por princípio, ‘totalitário como qualquer outro sistema’, na medida em que submeteria a natureza e a sociedade, não importando suas qualidades, ao cálculo da quantificação, à lógica formal e à uniformização de suas atividades. E aí repousa sua maior contradição. A desconstrução do mito, que traria a liberdade por ‘investir os homens na posição de senhores’, pela superação da própria dominação, foi substituída, em nome de direitos universais, pela razão do mercado. Porém, o controle sobre a natureza não fora apenas mantido, mas agravado na forma de dominação sobre os homens. E o mercado tornou-se a instância privilegiada dessa modalidade de controle. Democrático na indiferença quanto às origens daqueles que nele vêm trocar suas mercadorias, o mercado exige, porém, que as qualidades individuais dos consumidores sejam também modeladas segundo o princípio último da produção das mercadorias. É aquela indiferença do mercado a mesma encontrada na ciência. Responsável pelo domínio da natureza, ela constrói um mundo à sua imagem e semelhança, segundo princípios de isenção e de indiferença científica. Sendo imparcial, o pensamento se converte em processo automático, reificado. Torna-se indiferente, perde sua capacidade de reflexão e não mais questiona seus próprios rumos ou a justiça de seus fins.

Por outro lado, sendo global e onipresente, o mercado dispõe da técnica necessária, fornecida pela ciência, para fazer dos homens engrenagens de seu motor, anulando-os, através do princípio econômico da concorrência total. A total administração da sociedade extingue o pensamento autônomo e reforça a uniformidade e a unanimidade em uma sociedade de massa, amorfa.

O objetivo do trabalho de Adorno e Horkheimer é compreender como a humanidade, ao invés de encontrar sua redenção pelo esclarecimento se degradou em sucessivos processos de autodestruição, caminhando para uma nova forma de barbárie. A supremacia da técnica cumpriu o cerceamento da imaginação teórica e ‘preparou o caminho para o desvario político’ (idem, 6). O procedimento matemático tornou-se o próprio ritual de pensamento, transformando-o em coisa, em mero instrumento. Imediatizada, a razão passou a se submeter ao factual e à sua repetição. O avanço científico, na medida em que capacitou tecnicamente a eliminação da miséria, trouxe, no entanto, seu crescimento, o que, para os autores, denunciaria como obsoleta a razão de ser da sociedade racional.

Funcionando nesses moldes, o esclarecimento é autodestrutivo porque requisitaria a coerção como suporte de uma igualdade fetichizada que pretende oferecer. Essa dominação defronta o indivíduo com a razão na realidade efetiva. Igualados no logos, o poder de todos os membros da sociedade acaba sempre por se agregar em um sentido uniforme, na divisão social do trabalho imposta pela instância do mercado, cuja racionalidade é mais uma vez reproduzida. E aquilo que ocorre a todos pela atuação de poucos se realiza sempre pela aparência de subjugação dos indivíduos por muitos. Ou seja, a dominação da sociedade tem sempre o caráter da opressão por uma minoria.

A falência dos valores humanistas se expõe na transformação dos indivíduos em seres genéricos, vazios, iguais uns aos outros pelo isolamento na coletividade, dominada pela força. O fascismo é o exemplo evidente de dominação pela força, sobretudo no momento em que a Dialética do Esclarecimento foi produzida. Ele foi capaz de extrapolar os limites da concorrência, convertendo-a em ‘apreensão total do homem’ pela regulação da livre troca capitalista e pela reinstauração do medo da barbárie que o esclarecimento pretendia contornar.

A derrota do inimigo fascista na Segunda Guerra e o fim dos regimes totalitários do Leste, no entanto, não anularam a falência do humanismo nas democracias liberais do Ocidente. O mérito de Adorno e Horkheimer foi o de adiantar, ainda durante a guerra, que a barbárie subjaz não apenas a sistemas de poder evidentemente totalitários, mas radica-se em toda forma de poder baseada no esclarecimento porque dele deriva, justamente, o vazio espiritual dos indivíduos e sua consequente dominação pela força.

Esse vazio acaba sendo preenchido pelos valores de mercado. Ocorre, então, um totalitarismo de mercado. Em lugar da formação humanista, a educação de massa. Esta não visa formar o espírito, como aquela, mas capacitar o indivíduo a viver nessa sociedade presidida pela técnica e pelos valores empresariais do lucro, da competição e do sucesso profissional. O sujeito só encontra seu lugar social quando se converte em consumidor. O fetiche da igualdade, comum a todas as sociedades ocidentais, democráticas ou não, proporciona um indivíduo tão genérico quanto os produtos que ele possa encontrar em um supermercado. Todos são idênticos na mediocridade espiritual. E as massas são impotentes nessa sociedade dirigida pelo princípio da coerção. E, à coação atribuída à natureza não dominada, manifesta-se a ‘total mistificação das massas’, promovida, justamente, pelo esclarecimento que antes viria para impedi-la.

Nas sociedades liberais, as paixões se convertem em interesses e todas as esferas da vida se determinam pelo fator econômico. Tecnicizada, a economia torna-se o braço prático do pensamento teórico. Coligadas, distantes dos indivíduos, economia e ciência, fundidas agora como se fossem uma instância única, consolidam sua supremacia sobre a sociedade contemporânea, determinando seus rumos com a mesma desfaçatez e impessoalidade de uma mão invisível.

À autonomia do mercado se contrapõe a total dependência do indivíduo. Ao lado da ‘invisibilidade’ das forças de mercado, no plano macro, está a monotonia do consumo permanente, no plano individual. A sociedade da administração total precisa do controle para persistir. O esclarecimento, que pretendia controlar a natureza, estrutura um poder que requisita cada vez mais força, forjando diversas expressões totalitárias.

Para Adorno e Horkheimer, o totalitarismo é capaz de produzir o homogêneo com o suporte de meios massivos de comunicação, complexo que chamaram de indústria cultural. Ramo produtor de mercadorias impregnadas de conteúdos simbólicos, os meios se localizam na interseção entre a infraestrutura e a superestrutura, promovendo ao mesmo tempo relações materiais de produção e formas ideológicas de dominação. Como indústrias, precisam atender a grandes contingentes de forma cada vez mais rápida e objetiva. Para isso, suas transmissões devem ser imediatamente compreendidas por todos, forçando-os a evitar a complexidade e a polissemia. Nesse contexto, essa precária forma de educação de massa, que substitui a formação humanista de outrora, reforça os elementos de passividade e semelhança, dentro de um sistema mais amplo de dominação. A semelhança trabalharia em função do consumo, enquanto a passividade em função da produção e do consumo.

Pelo lado da passividade, os meios de comunicação de massa despertam na audiência um conjunto de estímulos aos quais ela não é capaz de responder. Sem necessariamente impor convicções, indesejáveis nesse ambiente de superficialidades, a indústria cultural impede sua formação. Pelo lado da semelhança, há que se integrar as milhões de pessoas que de alguma forma participam dessa indústria, o que torna “inevitável a disseminação de bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais.” (idem, 113).

A indústria cultural é, pois, o último elo da cadeia de sujeição. Utilizando-se igualmente da técnica, ela trabalha para que o sistema se perpetue. Predomina a uniformidade e o consenso. A dominação está concluída. Diante do mercado todos são equivalentes, não há segregação de origens. Seu critério de exclusão é outro. Mas o mundo da equivalência é também o da indiferença. E a sociedade aceita bovinamente o intolerável. O princípio da indiferença, cujo ápice está na passividade da troca de mercadorias, é vivido como neutralização moral, criando um imenso abismo entre os avanços do conhecimento prático e o fracasso da iluminação moral. Desta lacuna saem os fenômenos que evidenciam a crítica de Adorno e Horkheimer.

Populações neuróticas, conflitos étnicos, perseguições raciais, a ascensão da criminalidade urbana, a miserabilidade material ou a decadência espiritual do homem contemporâneo se expõem como produto de um projeto fracassado. Prometendo a liberdade, foi capaz apenas de criar um sistema que restabeleceu novas formas de dominação. As luzes que libertariam o homem tornaram-no escravo de um saber que não mais lhe pertence. Igualados pelo estatuto da dominação e homogeneizados pelo mercado, os homens não têm espaço para a crítica. Uma sociedade alienada abraça um mercado acéfalo. O conhecimento imparcial forja a indiferença. Está pavimentado o caminho para a barbárie, e todas as suas expressões.

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